Fazer e Querer

“Bem-aventurados aqueles que fazem o que bem entendem pois esses viverão uma vida sem frescuras”
         O quão frustrante é ser obrigado a fazer alguma coisa. Desde pequenos somos instruídos “a obedecer os mais velhos porque eles são mais sabidos”. Mas talvez seja mais frustrante, até horripilante, parar para pensar o quão pouco isso se apercebe. Vivemos no automático. Recebemos uma instrução e a cumprimos. E não falo aqui somente daquilo que outras pessoas dizem para fazermos, mas principalmente aquelas que nos auto-impomos e sem ao menos perceber. Só porque vimos alguém fazendo ou porque um artista falou em uma revista que faz nos sentimos na obrigação de repetir. As academias estão lotadas de pessoas fazendo loucuras para atingir um padrão estético que é enfiado goela abaixo sem quase nenhum questionamento (o mesmo para as clínicas de cirurgia plástica). Porém que fique claro que aqui não critico os frequentadores de nenhum dos dois locais, pois até eu mesmo iniciei  e parei de frequentar a academia repetidas vezes. Ninguém escapa. 
         É esse dever-fazer algo sem questionar que me incomoda. Após ler um conto de um blog, e ficar encantado com o mesmo, estava a sentir-me vazio por achar não ser possuidor de nenhuma paixão que me motive a sair do leito todas as manhãs. Alguns têm a fotografia, outros a dança e eu tenho preguiça. E o mesmo vale para quando conjecturava estar mal preparado para viver as dificuldades da vida por nunca ter tido um relacionamento duradouro e tão pouco ter sofrido uma grande desilusão amorosa. Apercebi-me pensando em começar a procurar por suprir essas “lacunas” para não continuar a sentir-me vago e incapaz. Não nego que talvez achando algo que eu goste de fazer (assim como alguém que eu goste e acabe sofrendo por ela) não seria benéfico para uma vida mais proveitosa. Mas daí coagir-me a fazê-lo para que me sinta satisfeito é aterrorizador. E percebendo bem, é o que a maioria das pessoas fazem consigo e principalmente com outrem: dizer o que devem fazer. Lutarei contra isso! Até o fim dos tempos! Mas somente depois de acabar pra estudar pra essa prova de amanhã porque eu preciso tirar uma nota boa.
           Decidir por agir por conta própria talvez seja uma das decisões mais sábias no percurso que temos neste planeta. Também é inteligente não criar expectativas de que todos os acontecimentos importantes dela se darão como em uma novela, em um final de episódio bombástico. Percebo cada vez mais que as situações mais relevantes ocorrem nos momentos mais ordinários e cotidianos possíveis. Meus pais, o exemplo de amor mais próximo que tenho – e que não direi que foi o mais lindo e mais apaixonado de todos os tempos, mas é aquele que eu quero ter a chance de atingir pelo menos um terço do que foi – começou quando meu pai notou uma moça que estava jogando no lixo a comida que tinha nas mãos e a achou esnobe. Quando na verdade, segundo minha mãe, a comida estava estragada. Quão banal é uma história como essa? Sem floreios nem exageros. E por isso é perfeita. E é por isso que desejo uma igual.
            A vida (e o seu decorrer) acaba por nos privar de vários momentos felizes por outros puramente dispensáveis. Por isso, e aqui eu cito um possuidor de uma história repleta de altos e baixos, em um discurso para a turma de formandos de 2005 de Stanford, Steve Jobs disse que se fazia a seguinte pergunta todos os dias: “Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu gostaria de fazer o que estou para fazer hoje? E sempre que a resposta era ‘Não’ por muitos dias seguidos, eu sabia que tinha que mudar alguma coisa.” Essa reflexão, não necessariamente diária, para mim, é de extrema relevância. Perguntar-se se o que fará vai valer a pena à frente ou é só mais um momento que posteriormente ficará no véu do arrependimento de não ter sido aproveitado, se sair da rotina e ser livre pelo menos por uns instantes não teria valido mais a pena.  
            Sempre tive uma admiração tremenda pelos loucos. Criaturas fascinantes, esses. A história de que um louco só percebe que é louco quando outra pessoa avisa-lhe é de um fascínio incontestável. Enquanto ninguém o faz, agem dentro de sua maluquice como bem entendem, da forma que querem, ao seu bel prazer. Sim, infelizmente também são depreciados por aqueles amargurados e enclausurados dentro da sua rodinha social-moral e de bons costumes, mas óbvio que isso não faz diferença nenhuma. E, ainda assim, quando fazem algo que vai de encontro com todos os limites impostos por nós a nós mesmos, suas atitudes são justificadas com um pesar sem igual: “Infeliz, não sabe o que faz. É louco” Quem dera eu pudesse fazer tudo o que quisesse e escapar com uma dessas! Para falar a verdade, acho que vou ali enlouquecer um tanto. Me livrar de toda essa carência de querer sempre se sobrepor ao outro dizendo o que é o melhor, o que deve-se fazer depois. Quero dar meu próximo passo livre, de pés descalços e ouvindo uma música. Só não venha me dar as notícias de que enlouqueci.
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