08/12

Apanhei o primeiro ônibus que vi.

Senti que precisava descobrir mais daquela cidade que eu amava detestar. Senti também que precisava de um momento só para mim. Olhar pela janela do ônibus e me sentir em outro mundo, um que fosse somente meu. E ainda que conhecesse aquela cidade, aparentemente, cada vez que voltava a ela, tornava a me surpreender.

Sentimento estranho aquele. Não que tivesse brigado com alguém ou tivessem me decepcionado. Só precisava estar só. Passando por uma grande avenida de lá e percorrendo alguns prédios espaçados aquela paisagem não me parecia igual ao que eu era acostumado. De repente, aquelas ruas imensas e sem carros me lembravam as vezes que visitei Brasília. O que não necessariamente era bom, já que detestava Brasília.

De repente o motorista fez uma curva acentuada à direita e resolvi que era ali a minha descida. Puxei a corda e me aproximei da saída quando me assusto com imagem da minha irmã também levantando para descer. Pergunto surpreso:

“Bia, o que você está fazendo aqui?” – Mas não me lembro de ter uma resposta.

Mas minha surpresa era justificável. Minha irmã mais velha, Beatriz, possui um pequeno detalhe que a torna a pessoa mais especial do mundo. Por algum extraordinário evento genético o cromossomo 21 dela tem um par a mais, o que a torna possuidora da Síndrome de Down. Meu instinto de irmão mais novo porém superprotetor culpou imediatamente minha Mãe. Que absurdo deixar minha irmã que tem certas dificuldades que outras pessoas não possuem se virar sozinha por uma cidade cheia de perigos como era Belém.

Perguntei se ela iria descer ali também. Não tinha ideia do que ela estava fazendo naquele ônibus e o que obtive de resposta foi uma fala enrolada, mas que eu tinha o grande orgulho de entender (coisas que só um irmão de alguém com síndrome de Down entende) junto de um gesto dizendo que iria descer somente na próxima parada. Ainda que preocupado, estava começando a me sentir entusiasmado com a ideia de minha irmã andando sozinha por aí.

Descemos de mãos dadas em frente a um antigo edifício, parecendo uma daquelas catedrais góticas que vemos em filmes, com uma grande placa com os dizeres: “Óperas clássicas com Antônio Romeu” esse último, um grande ator de uma grande rede de televisão. Minha mente foi atingida com a lembrança de um aviso entusiasmado de minha mãe dizendo que estava orgulhosa de que a Bia estava frequentando sozinha um evento com músicas clássicas e um ator da rede Mundo de televisão. Provavelmente não lembrei daquilo antes pela mesquinhez que possuo de na maior parte do tempo só dar atenção aos meus pensamentos e ouvir pouco do que os outros têm a me dizer. Logo isso, algo tão importante para vida de nós três e logo agora que eu estava fazendo faculdade em outra cidade e, consequentemente, distante das duas pessoas que mais amo e amarei em toda a minha vida.

Desabei em choro. Com o braço dado ao meu, Beatriz não reparou nas lágrimas que meus olhos faziam percorrer pelo meu rosto em um ritmo sereno. Parecia não perceber também o fungar do meu nariz que tentava impor um ritmo a minha respiração, agora afetada pelos soluços contidos que eu gerava. Que situação mais maravilhosa. Meu coração era incapaz de caber em meu peito e preenchia-o com suas batidas desritmadas. Que momento perfeito. Ah se nosso pai estivesse ali para presenciar tudo aquilo.

Minha irmã, a quem sempre tive o maior cuidado do mundo porém que recebia de mim uma atenção tão irrisória quanto nada estava ali: me conduzindo para um banco dentro daquela igreja estonteante intrincada em um dos cantos da cidade das mangueiras. A apresentação do dia já havia começado. Não que significasse muito pois meu olhar embaçado não conseguia alcançar muito longe. Que orgulho. Não precisava de mais nada, estava realizado ali. Tal qual um mestre no momento em que vê seu aprendiz atingir seu objetivo e se completa, eu me bastava ao olhar minha irmãzinha assistir alguns atores em um cenário improvisado pronunciarem falas de um grande autor do medievo.

Não lembro de muito desde daí.

Virei meu corpo pro lado e abri meus olhos. O terror da constatação de que aquilo tudo, aqueles pequenos instantes que com certeza ficariam marcados como uns dos mais perfeitos da minha existência, não passavam de um fruto de uma mente que agora se encontrava desperta. Chorei. Como poucas vezes já havia. No meio da madrugada postei meus dois pés fora da cama e apoiei os cotovelos nos joelhos para segurar uma cabeça que agora só se ocupava em derramar lágrimas. Lágrimas essas de infelicidade por saber que aquilo que havia sonhado é algo plenamente alcançável e possível de acontecer porém improvável.

Mas a certeza que tive é a de nunca mais poder não pensar em minha irmã. Por mais que as circunstâncias nos mantenham afastados, por mais que ainda quando juntos permaneçamos distantes, meu pensamento deveria por vezes se voltar a ela. Um dos seres mais puros e inigualáveis que já conheci e que me ama incondicionalmente tem o direito de, no mínimo, ter reciprocidade. Que a vida, nem que por sonhos ou através de outros mais efetivos puxões de orelha, nunca me deixe perceber tarde demais que não estou amando tanto quanto posso alguém que o faz por mim.

Dedicado à Beatriz.

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