Crônica de um dia (in)comum

Acordei.

Não que quisesse tê-lo feito, mas, infelizmente, era necessário. Nos últimos dias minha vontade de viver tinha se reduzido a níveis nunca vistos anteriormente. Todos os dias, após tomar banho, passava a mão para desembaçar o espelho e encarava um homem velho – espiritualmente –, com o corpo cansado e com a barba por fazer. Dessa última eu tinha desistido. Deixei de fazê-la há mais tempo que conseguia lembrar e, apesar dos olhares tortos dos colegas de trabalho, não iria fazer nada para mudar. Esperaria meu chefe dizer que eu estava assustando os clientes. Tinha a impressão – quase certa – que hoje seria um daqueles dias que aos quais, quando chega ao fim, ao voltar à cama e recostar a cabeça no travesseiro para pensar no que se passou, não se lembra de nada. Justo por ter feito coisa alguma.

Ou não ter feito nada que fosse digno de lembrar.

Depois de me arrumar com uma roupa qualquer que estava por lavar há mais de um mês, cruzei a porta para viver mais um dia da massante rotina que tinha se tornado a minha existência. Nada me comovia mais. O trabalho pelo qual sempre sonhei durante a faculdade, os filmes que passavam no cinema perto de casa, os livros da livraria/café que eu frequentava dia sim, dia não. Nem mesmo a moradora de rua e seu cachorro salsicha, que residiam em uma esquina no meu caminho caminho para o metrô, com a qual eu trocava algumas palavras todos os dias, geralmente sobre o clima, e depois a dava os trocados que tinha bolso. Não hoje. Passei ao seu lado com um aceno e um sorriso amarelo.

Mas se perguntassem o porquê dessa melancolia ininterrupta, é bem provável que não soubesse o que responder. Talvez estivesse cansado. Cansado de ter que cumprir um roteiro de vida que parece que foi redigido para mim antes mesmo de nascer. Cansado de um sociedade que, quando alguém deseja tirar uma foto da vista, vira a câmera para si mesmo, com uma necessidade incompreensível de se mostrar presente. Cansado da minha irrefreável impaciência em relação a insignificâncias. Embarquei no vagão do metrô. Estava impressionantemente vazio. Consegui sentar e continuar a contemplação da minha rabugice.

Não é de se admirar que dormi durante a viagem. Mas o fiz de uma forma tão majestosa que quando despertei havia surgido uma mancha de baba na minha jaqueta. Como não é inimaginável também, passei da estação em que deveria descer. Minha apatia não se alterou, até porquê não estava com uma grande vontade de ir ao trabalho mesmo, mas ainda chegaria em tempo para a reunião com o cliente. Era só desembarcar e pegar o trem no sentido contrário. Chegou a estação e desci. Quando percebi onde estava, me espantei. Meu marasmo se afastou por uns instantes, para retornar quase que imediatamente. Encontrava-me a mais ou menos 20km de onde fica a agência de publicidade que trabalho, pois tinha embarcado na linha de metrô errada. Levaria mais ou menos 1h 30m para chegar lá. Aceitei minha condição, dei de ombros e saí naquela estação mesmo.

Me surpreendi com um dia ensolarado ao chegar ao topo da escada, não se adequando em nada à roupa de frio que tinha vestido para o dia cinza que havia amanhecido. O tirei para amarrar a cintura e ficar só com a minha camiseta surrada de Star Wars. Havia saído numa região do subúrbio da cidade, que por coincidência era onde havia vivido a infância e boa parte da juventude, até ir para a faculdade. Era plenamente residencial, por consequência muito arborizado e cheio de parques e praças. Decidi ir em direção à praça que dava de frente para o rio que dividia as duas regiões da cidade. Sentei em um dos bancos e passei a apreciar meu desrespeito com minhas responsabilidades.

Pena que aquele momento não duraria muito.

– ἔ –

 – Só pode ser um milagre!

Aquela voz estridente me era bem conhecida. Virei lentamente meu pescoço para esquerda como que para evitar pelo maior tempo possível aquele encontro. Minha irmã surgia de mãos dadas com o filho.

 – Er.. Oi, Gabi!

 – É dessa forma que você cumprimenta sua irmã caçula? Levanta e me dá um abraço!

Foi o que fiz. Ela tinha 3 anos a menos que eu e outros muitos centímetros em altura. Sua cabeça batia no meio do meio do peito. Por um lapso de memória, esqueci que morava naquela região, na casa que nossos pais nos deixaram ao falecerem. Agora morava lá sozinha com seu filho. Não a via há quase um ano, quando fui no aniversário do Felipe, o filho que agora estava agarrado em sua perna e me olhava emburrado.

– Filho, toma a bença do seu Tio! – me agachei e estendi a mão, que ele beijou e eu fiz o mesmo com a sua – Mano, preciso muito da tua ajuda.

– Hmm, fala.

– Eu consegui uma entrevista em uma cafeteria daqui a pouco, mas não tenho com quem deixar o Felipe e não posso levar ele. Podes cuidar dele por algumas horas?

Gabriela – que recebera esse nome em homenagem à personagem de Jorge Amado, pois nosso pai era um aficionado por literatura – não havia sido agraciada com a mesma sorte na vida que seu irmão. Desempregada no momento, interrompeu o curso de odontologia por conta da gravidez. No nascimento de Felipe foi detectado o autismo dele, o que acabou com o pai dele os abandonando. Agora ‘subvivia’ com a pensão dos nossos pais somada ao seu auxílio-desemprego. Se recusava a receber qualquer dinheiro meu – era orgulhosa, tal qual a mamãe. Agora dividia seu tempo entre procurar um emprego e cuidar do filho.

– É.. acho que posso sim – disse, depois de hesitar por alguns instantes e cogitar dar as mais diversas desculpas.

– Você é demais, irmãozinho! – dando-me um beijo na bochecha, depois se agachando – Filho, a mamãe vai ter que sair e você vai ficar com o Tio. Se comporte, tá?

– Não mamãe, não quer tio – tinha dificuldade para falar e, com o pouco que conseguiu, já mostrou que minha tarefa não seria das mais fáceis.

Deu um abraço apertado no filho e um beijo na bochecha também. Pegou a mão dele e o entregou para mim, logo depois desaparecendo. Se permanecesse mais alguns instantes, era provável que não conseguisse partir. Olhei para o meu protegido e ele me respondeu com uma língua para fora da boca. Levei-o para o banco onde antes estava sentado e ficamos, os dois, contemplando o nada, pensando no que fazer.

Fazia uma bonita tarde de outono. As folhas das árvores já não estavam mais ali. E as poucas ainda presentes, com tons de amarelo-amarronzado, eram sutilmente arrancadas aos poucos pelo vento frio que soprava, apesar do sol que agora se encontrava entre nuvens. Todos os sintomas que o inverno se aproximava suavemente. Isso fez com que eu colocasse de volta minha velha e desbotada jaqueta de baseball, mas deixando o zíper aberto. Como quem não quer nada, um senhor com os cabelos brancos tal qual seu avental surgiu na nossa frente. O branco da sua roupa, dos cabelos e do carrinho que empurrava, somente contrastavam com o rosa chamativo do algodão-doce que vendia. Tampouco deixaríamos de notá-lo, já que começou a anunciar o seu produto a todos pulmões, para quem quisesse e não quisesse ouvir. Olhei para o lado e para baixo e fui recebido por Felipe com um olhar de “eu quero muito, mas não vou me humilhar pedindo para você”.

– Você quer um algodão-doce?

– Quelo!

Segurei a sua mão para ajudar a descer do banco e ele disparou em direção ao velho vendedor. Acenei para que ele o desse um e logo após cheguei para pegar um para mim. Quando fecho a carteira e estendo a mão para pagá-lo percebo a ausência do menino. Exclamei um palavrão. Saí correndo deixando o algodão rolar pelo chão empurrado pelo vento e disparei gritando por ele. Havia sumido em três segundos de distração. Olho para todas as direções e nenhum vestígio dele. Quando estava prestes a entrar em pleno desespero, ouço uma gostosa risada de criança atrás dos arbustos nas minhas costas. Dou a volta mais rápido que posso e vejo aquela cabeleira meio castanha meio loira correndo atrás dos pombos segurando uma nuvem rosa em uma das mãos. Creio veementemente que nunca meu coração bateu tão rápido quanto naqueles breves instantes. Estava prestes a gritar com o causador do meu desespero, quando ele corre na minha direção sorridente e me abraça as pernas. Ele nunca tinha demonstrado aquele tipo de carinho pelo tio. Me agachei e pedi que não largasse mais da minha mão. Ele concordou com um aceno e voltou a tirar a tufos rosas do palitinho.

Quando me pus de pé novamente, percebi uma agitação ao redor. Algumas poucas pessoas se reuniam em um monte, observando alguma coisa. Segurei forte na mão de Felipe e caminhei com ele naquela direção. Tomei um susto quando percebi o que acontecia.

Um velho senhor de óculos escuros – quase tão velho quanto o vendedor de algodão-doce – de cor tão escura como o tronco da árvore da qual na sombra ele se abrigava, sentado em um banco, estava tocando seu trompete de olhos fechados, apaixonadamente. Se não fosse um transeunte gritar “Meu deus, Louis Davis tá aqui!” é crível que passasse despercebido como mais um artista de rua que estava ali tentando ganhar o suficiente para sobreviver mais um dia. Coloquei o pequeno Felipe nos meus ombros e nos aproximei da pequena multidão. Apesar da atenção que agora recebia de grande parte dos que estavam ali, Davis não se abalava; continuava tocando e cantando como se estivesse se apresentando somente para si.

Tinha visto na manchete de um tabloide local dizendo que o gênio do jazz, agora ancião, havia se mudado para a cidade, buscando um lugar para aproveitar a 3ª idade. Mas nunca imaginei que iria encontrá-lo. Uma lágrima se formou nos meus olhos. Isso, pois, nos finais de semana, quando meu pai desenterrava o tocador do porão, colocava seus velhos vinis para tocar no nosso quintal, enquanto eu e Gabi brincávamos e nossa mãe servia o almoço. Quando não, pegava sua velha viola e tocava uma versão própria de What Rose para nossa mãe enquanto assistíamos, encantados. O cheiro do churrasco misturado com a sensação da grama úmida passando pelos nossos pés ao som de When Marching in Flamenco me levou de volta a infância. Era extasiante. Tão repentinamente quanto surgiu, Louis encerrou seu mini-show cantando Blue in Wonderful. Ao final, o gênio agradeceu em um lento movimento, o mais rápido que a sua idade permitia, tirando seu chapéu e baixando a cabeça e se levantando, auxiliado pela sua cuidadora, que residia anonimamente na plateia. E, assim, desaparecendo na esquina ao final do parque. Os espectadores da repentina apresentação rapidamente se dispersaram, seguindo suas vidas, como se nada tivesse acontecido.

Quando estava prestes a descer Felipe dos meus ombros, com seu pequeno e gorducho indicador ele apontou em direção ao Magrove Building, o maior prédio da cidade. Ficava rodeado por uma grande área verde, um pouco afastado dali. Uma inexplicável construção do tamanho de uma montanha que despontava entre um lago preenchido por patos, pacas e pavões.

– O que é lá?

– É um prédio, por quê?

Quelo ir lá. É bonito.

Aquele local era bastante frequentado, principalmente por turistas. Mas eu, que cresci naquela cidade, nunca havia visitado. Os seus últimos andares eram abertos ao público, que podia aproveitar da melhor vista da cidade e da baía que a cercava. “Por que não”, pensei.

– ρ –

Tomamos o primeiro táxi que apareceu. Um muçulmano mal-humorado, aparentando ter seus 40 e todos os anos, nos mirou pelo espelho do carro com seu turbante e os olhos roxos de várias noites acordadas por causa do trabalho. Bufou um “para onde?” por entre dentes e rumou para o endereço após eu me esforçar para fazer-me entender com aquele que, provavelmente, era um imigrado ilegal e sustentava uma família no seu país de origem. Nunca fui partidário da opinião xenófoba dos meus amigos de faculdade e de grande parte da população que os imigrantes não tinham o direito de vir a esse país; que deveriam voltar ‘para onde pertenciam’. Em verdade, acredito que os imigrantes são, de um país, a sua alma. Afinal de contas, todos o somos em algum ponto da genealogia do pluralismo social a que pertencemos.

Além disso, existia Aida. Aida era uma refugiada que havia fugido do seu país por ser filha de dois participantes do movimento separatista senegalês. Devido a isso, foi embarcada em um avião emergencialmente e despejada nas ruas daqui, sem apoio algum. Um dia, minha mãe a encontrou desorientada por essas esquinas, pedindo algo para comer. Resolveu dar-lhe abrigo em troca de alguma ajuda nas tarefas domésticas, já que seus plantões na enfermaria do hospital eram irregulares. Assim, ela acabou, em grande parte, criando a mim e minha irmã. Graças a ela, sou fluente em francês sem nunca ter pisado em uma escola de idiomas. Além de outra língua, aprendi com Aida a sentir afeição por alguém que em outra chance eu nunca sequer conheceria. Alguém que veio de além do Atlântico para recomeçar.

Devo muito do que sou a uma mulher que no início nem sequer identidade possuía.

Ao final, antes de se casar – já idosa – com um dono de supermercados que conheceu quando fazia compras para o almoço, já nem “ajudante” era considerada. Aida era muito mais família que alguns consanguíneos.

Ele não dirigia mal, mas estava um pouco acima da velocidade permitida para aquela região. Pedi que diminuísse, mas não consegui superar o volume dos nasheeds que reverberavam pelos alto-falantes. O que se sucedeu ocorreu entre o período de dois tiques de um relógio analógico: Moto corta a frente do táxi; Táxi dobra forçadamente à direita; bate na caixa dos correios da calçada; assusta um cachorro que urinava ali, que começa a latir. O maior inconveniente foi a discussão que insurgiu dali entre os dois motoristas, que agora estavam discutindo em pé fora de seus veículos, o que gerou uma crise de ansiedade em Felipe. Não acostumado a ver discussões, agora ele estava se debatendo e gritando no banco de trás do carro.

Abri a porta, o tirei do carro sob seus protestos e coloquei envolto ao meu pescoço e entreguei algumas notas ao taxista, que agora pronunciava algumas expressões que eu poderia jurar serem palavrões em árabe. Sem saber como agir, fui andando pela calçada tentando consolar Felipe. Dobrando a esquina de uma rua pouco movimentada, quase tropecei em uma fileira de bicicletas que podem ser alugadas com uma passada de cartão de crédito. Embarquei-o na garupa na frente da bicicleta e coloquei o capacete em mim e nele. O dia estava tomando rumos totalmente inesperados. Há 15 anos não apoiava meus pés em um pedal e lá estava eu agora arriscando minha vida e a do meu sobrinho. Se eu o entregasse à Gabi com um arranhão que fosse, ela seria capaz de pressionar os dedos ao redor do meu pescoço até que sentisse meu pulso diminuir e percebesse ser aquele meu último suspiro. Portanto, melhor tomar cuidado.

Felizmente, em uma recente reforma, a cidade fora povoada por ciclovias. Uma iniciativa controversa, que gerou muito apoio e muitos protestos. E, para minha sorte, e, principalmente, de Felipe, eram praticamente todas retas. Sempre possuí uma dificuldade para fazer curvas quando no comando de uma magrela. Percorremos o caminho até nosso destino final em 45 minutos de pedaladas leves, aproveitando a vista daquela que eu poderia afirmar ser uma das cidades mais bonitas do mundo. Felipe, que por vezes se segurava firmemente em seu banquinho, perto do final estava aproveitando com os braços abertos querendo abraçar o vento que soprava seu rosto, deixando-o o rosado, e esvoaçava a sua cabeleira cortada em formato de cuia.

Sempre admirei esse lugar por congregar diversos cenários dentro de um só. Seja o relevo, feito por planícies, serra e vales. Ou a vegetação, contendo floresta, um pouco de mangue com toques de campo, esses, um pouco mais afastados. Sendo assim, em um simples passeio a duas rodas pudemos ver morros que subiam o suficiente para um belo salto de bungee jump e também algumas praias que nunca ficavam sem alguém aproveitando a maresia. Também vimos uma placa de boas-vindas a um parque que conservava espécimes de árvores e animais raros. Tudo ali, tão perto de casa. Percebi que deveria sair mais.

E agora veríamos toda aquela improvável combinação de paisagens de cima.

– ω –

Por vezes, procuramos sentido no distante, no longínquo. Por quantas e demasiadas vezes ouvi alguém falar que precisava sair, viajar e se encontrar em algum lugar ao longe. Mas será que fazemos um esforço para reencontrarmo-nos em nós mesmos? Todo dia, ao encarar no seu reflexo da sua janela, encontrar um novo eu, melhor do que o de ontem? Perguntar se o que aquele dia trará para você acrescentará algo na construção de um inesperado e satisfatório futuro?

Não me fiz essas perguntas ao acordar hoje. E aqui estava eu encarando, embasbacado, com o rosto colado no vidro do ponto mais alto da cidade. Me pergunto como podem alguns acreditarem que tudo isso foi formado por uma acidental explosão há alguns bilhões de anos. Que tudo existe sem razão alguma. Para que essa beleza simplesmente descomunal existisse só para ser planejada por um arquiteto universal com a alma e o coração de um poeta. Não sou e nem nunca fui o mais religioso dos indivíduos. Na verdade, fazia pouco daqueles que sentiam uma necessidade incessante de reafirmar sua fé e gritavam para que todos a pudessem ouvir. Para mim, isso não passa de uma insegurança naquilo que se crê. Para mim, esses pequenos momentos de contemplação individual, acompanhados de uma inexplicável sensação de pequenez e incompreensão são totalmente suficientes e renovadores para qualquer crença que exista.

E eu estava acompanhado nessa empreitada. Felipe estava do meu lado com o nariz encostado no vidro e com as duas gorduchas pequenas mãos apoiadas ao lado da cabeça, deixando a marca de seus dedinhos no vidro. Nunca tive vontade de ter filhos. Já me bastavam as minhas inquietudes. Fora que a paternidade nunca me pareceu nada mais que uma sucessão de tentativas e erros de passar o melhor de si para uma miniatura de ser humano em crescimento. Só não achava que eu tivesse nada de bom para repassar, ou, o pouco que tenho, queria guardar para mim. Me acho, ou achava, envolto em uma rede egoística que me prendia em idiossincrasias. Mas aqueles curtos momentos com um pequeno menino que na maior parte do tempo estava fechado em seu pequeno mundo, me faziam reconsiderar. Se eu conseguia fazer ele se desprender do isolamento que sua mente inconscientemente o guardava, talvez tivesse algo a transmitir de razoável. Mas, antes, encontraria uma pessoa que fizesse, de forma permanente, o que nesses instantes fiz com Felipe: libertar-me na prisão mental que construí para me refugiar das tensões de uma vida normal. Aí sim eu estaria pronto.

– ς –

Estávamos ali a mais tempo do que poderia lembrar. Em certo momento, eu e Felipe nos deitamos no chão de frente para uma das grandes janelas da torre e assistimos o sol se esconder por entre as verdes montanhas no horizonte. Só nos levantamos quando um segurança nos avisou que dali a pouco tempo encerrariam as visitas e o último elevador desceria. Felipe, a esse instante, já estava com mais sono do que poderia aguentar em pé. O peguei em meu colo e o coloquei apoiado no meu ombro. Estava na hora de levá-lo para casa. Como não usava celular, Gabriela já deveria estar confabulando e formando os piores cenários em sua cabeça do que poderia ter acontecido. Ela sempre me cobrava para comprar um desses aparelhos com mais funções de que o próprio telefone pode compreender, mas eu me esquivava todas as vezes. Anotava meus compromissos na pequena agenda que sempre levava comigo, também possíveis ideias do trabalho, assim como os desenhos que eu arriscava rabiscar de vez em quando. Embarcamos no elevador onde estávamos só nós dois e um velho ascensorista que me deu um pirulito com a minha promessa que o entregaria a Felipe quando ele acordasse.

Entramos na estação de metrô mais próxima dali. E, dessa vez, olhei atentamente a plaquinha que indicava o destino. Felipe continuava dormindo. Quando envolto em meus pensamentos, um conjunto de três pessoas: dois homens e uma mulher entraram com seus rastafáris no vagão e começaram uma declamação de poemas. Manoel de Barros, Edgar Allan Poe, e cia. Quase como um sarau restrito às 5 pessoas que estavam naquela viagem para casa. Mas não somente liam aquelas palavras como se uma simples folha de texto fosse. Sua interpretação carregava um simbolismo, representando a alma daquele escrito. Seus autores ficariam honrados. Quando acabaram, 3 estações depois, simplesmente agradeceram a atenção que foi lhes dada, e as pequenas palmas que eu e mais três pessoas deram. Se juntaram de mãos dadas, como os atores em um grande teatro, se abaixaram juntos, saudando sua pequena grande plateia. E saíram, pouco antes de as portas se fecharem.

Descemos na estação seguinte. Após 5 minutos de passadas, bati à porta da minha antiga casa. Gabriela abriu a porta em um susto e ao realizar quem estava encarando começou a gritar e me bater repetidamente, quase acordando Felipe.

– Quem você pensa que é pra sumir com meu filho o dia todo e não dar notícia nenhuma?! Eu estava louca ligando pra todo mundo que conhece você e ninguém fazia ideia da onde estava! – continuou falando enquanto eu entrava e deitava o adormecido no sofá.

– Calma, calma. Está tudo bem. Eu só levei ele pra passear um pouco, nada demais.

– Como nada demais?! Ele tem aula amanhã e você passa o domingo inteiro com ele e blá blá blá blá.

– Espera, domingo? Hoje é domingo.

– Claro que é, seu lunático.

– Mas então não perdi minha reunião. E você? Uma entrevista de emprego no domingo?

– Sim, era. Mas eu acabei não conseguindo. Já tinham preenchido a vaga. Mas daí aconteceu a coisa mais improvável: um homem que estava sentado comendo lá e me vendo chorar em um banco afastado se aproximou e estendeu um lenço pra mim.

            “desculpa, mas eu não pude deixar de ouvir sua conversa. Você está procurando emprego?”

Eu, ainda que desconfiada, respondi.

           “sim, mas a vaga que estava aberta aqui já foi preenchida”

           “ah, sim. Primeiro, desculpa a intromissão. Meu nome é Marcos e eu sou dentista e tenho um consultório aqui perto que está sem secretária. A minha antiga acabou o curso dela e pediu demissão. Eu estou ficando louco com tantos horários, agendas e pacientes. Você estaria interessada?” 

– Eu aceitei até antes de ele acabar de falar. Quando cheguei em casa e procurei o nome dele na internet, descobri que ele é um dos dentistas mais conceituados da cidade. E por eu ter alguma formação em odontologia, ele disse que se eu quisesse poderia voltar pra faculdade e assistir as consultas pra aprender alguma coisa. É tanta felicidade que eu fui até ao túmulo dos nossos pais contar a novidade.

– Que demais, Gabi! Estou muito, muito feliz mesmo. Papai e mamãe ficariam muito orgulhosos. E eu sei que estão, onde estiverem.

– Obrigado, irmãozinho. E obrigado por ter sido essa companhia maravilhosa para o meu filho.

– Nada de agradecer. Enfim, vou indo. Se cuida e diz pro Felipe que domingo que vem vamos ao zoo.

Saí de lá já com minha agendinha em mãos. Como era domingo, minhas chances de ser demitido diminuiriam drasticamente. Os olhos introspectivos de Felipe, meio que por difusão, me trouxeram uma outra forma de observar as coisas. Se um pequeno menino, que por vezes se encontra enclausurado nas amarras de sua própria mente, consegue, todo dia, acordar e se desprender delas para encontrar beleza nessa realidade cheia de morbidez e amargura que se apresenta toda vez que abrimos os olhos, eu também poderia. Nesse momento, sentado no metrô voltando para casa, rascunhava freneticamente uma ideia para a campanha que eu tinha de apresentar naquela reunião amanhã com um cliente importante. Chegando em casa, continuei a escrevê-la e, quando me dei por conta, já a havia acabado de escrever e metade do tempo que tinha para dormir já havia passado. Só tirei o sapato e dormi com a roupa que vestia.

Acordei só quando o terceiro despertador tocou. E hoje nem tinha tempo para resmungar antes de ir trabalhar. Me arrumei e saí correndo. Cheguei a tempo e fiz a melhor apresentação da minha vida. O cliente em questão era o departamento de turismo da cidade, em especial o prefeito, que queria fazer com que o turismo voltasse a ser uma das fontes de crescimento da cidade. Porém, eu não sabia que o próprio iria comparecer à reunião. Entreguei um roteiro a ele e que, quando o acabou de ler, algumas lágrimas brotavam do seu rosto. A ideia nada mais era do que um comercial que retratava meu dia anterior com Felipe. Ele, quando fosse produzido, teria a trilha sonora de Louis Davis. Também teria um narrador, que ainda teria de ser escolhido. Teria de ser um muito bom. Ele teria de decorar um texto grande, que acabaria mais ou menos assim:

            ”… se a vida acontece, ela é longe da solidão. Ao invés de ‘vamos marcar’, ao encontrar com os amigos, diga ‘onde e quando?!’. Ao acordar todo dia, pense: ‘um dia para viver e ser vivido”. E, no momento em que se apaixonar, não hesite em se entregar por todo. E se já o estiver, reapaixone-se. Sempre.”.

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