Sobre beiradas e precipícios

Ela não era bonita. Longe disso. Mas era natural. A risada que ecoou no pub vazio em uma terça-feira á tarde era como o vento ecoando em um descampado, livre. Aquele som me fez erguer o olhar da cerveja, o campo de visão limitado pela dor e pelo chapéu que eu usava. “Loira?” Supus debilmente. “Estrangeira.” “Morena!”

Estranhei uma turista naquela parte da cidade, mas não quis me meter.

Pedi mais uma cerveja.

Voltei atrás: acabara o dinheiro.

“Eu pago.” A garota selvagem falou. Sorrisos. “Ainda que esteja meio cedo para você pegar um porre.”

“Não é da sua conta.” Ah, droga.

“Agora é sim. Te paguei uma cerveja e você sorriu para mim. Pelo que já vi da vizinhança, as coisas estão ficando sérias entre a gente.” Engraçada. Veio beber perto de mim.

De novo, não era bonita, mas aqueles olhos já haviam partido corações – e sabiam muito bem disso. As sobrancelhas já duvidaram muito, mas cerravam-se pouco agora. Até seu precipício, era serena.

Disse a ela o meu nome e ela me disse o seu. Apontou para o meu violão. “Já foi ou ainda vai?” “Já fui.” Suspirei.

Suas mãos sacaram um celular, que usavam com pouca desenvoltura. Disca. Espera. “Não vou mais hoje, tá?” Desliga. Olha pra mim:

“Te paguei uma cerveja. Agora me leva num lugar bonito.” Abusada. Quem ela pensa que é? De qualquer forma, saímos. Na frente do pub, ela puxou uma câmera instantânea um tanto surrada da bolsa e disparou contra a fachada do lugar. Tarde demais: aquele lugar já era dela. “É pra guardar” Ela disse sorrindo, e escreveu meu nome e a data no rodapé, numa letra repentina.

Conduzi ela até o parque local, e no caminho, contei meus planos e falhas. Ela contou seus desejos, tão abstratos que minha amargura calou-se na indignação.

Eu a ouvia e a odiava mais a cada minuto. Sem mais nem menos, ela estava ali, mudando tudo de lugar.

Sentamos no alto de uma colina. Saquei um cigarro.

Acende.

Traga.

Expira.

Mais uma foto.

Ela havia me fotografado,porém não reconheci de primeira. Como? Em seguida me pediu que tocasse o violão. “Toca você, se quiser” Me arrependi do que disse assim que as palavras saíram. Pois em seguida, lá estava ela, colocando alma onde sempre depositei minhas vísceras. Eu queria gritar de pânico. Por favor, não. Tentei dizer a mim mesmo: “Ela não é daqui. Ela não pode ser sua. Nem de ninguém.”

“Vim procurar uma casa por aqui” Ela solta. “Ah, sim. Alguma sorte?” “Não, nenhuma. Talvez tenha que partir pra outra vizinhança.” Antes de ao menos pensar, me ouvi dizer: “Tenho um quarto para alugar.”

Merda.

E se ela for uma louca? E se ela tiver namorado? Namorada?!

E se ela aceitar?

Ela me olhou fixamente por um minuto, como se ouvisse o que eu pensava. Me perguntou o preço e desconfiou da minha pechincha. Então, num suspiro, estendeu a mão: “Fechado. Não precisa se preocupar com organização ou namorado. Só um deles eu tenho demais. Adivinhe qual.”

Deitei na grama com um riso curto. Ela continuou a tocar o violão, cantarolando noutra língua. Cogitei cobrar suas canções como pagamento.

Com aquele jeito, era provável que amanhã aparecesse casada, e de preferência comigo. Bruxa.

“Como fui te conhecer, garota?”

Ela pôs o violão de lado, se aproximou, e, ainda que brincando, olhou na minha alma e disse: “Eu que fui ao seu encontro. Foi arriscado, mas fui. Parecia que você estava no precipício da terra – ou de você – pronto para se jogar. Você é bonito, mas não foi algo muito atraente, ainda mais no primeiro encontro.” “Não foi um encontro.” Falei como uma criança birrenta. “Foi sim, e está sendo.”

Garota esquisita. Não pedi para ser salvo. Sim, estive na beirada e a risada dela me fez voltar atrás. Tão pura que me ofendia. Tão natural que me atraía.

Me encarou com aqueles grandes olhos. Seria possível que, me conhecendo melhor, ainda haveria neles alguma ternura?

Anoiteceu, ficamos gelados pela noite e pela contemplação mútua. Pediu-me que a levasse pra minha casa, como uma criança cansada. Levantou primeiro e andou em direção ao fundo de mim e pra beira da colina.

Não era bonita. Era mais mulher do que eu acreditava ser possível.

E eu a estava levando pra casa.

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