Carta aos Navegantes

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Passamos o caminho todo esperando pelo fim. O que é a vida se não sucessivas tentativas  de não deixar a nossa mortalidade vir à tona. Ou só não despender muito tempo pensando nela. Eu, por exemplo, prefiro deixar todos esses questionamentos existenciais para aqueles com as sinapses dispostas a trabalhar nisso.
A melhor analogia que já escutei em relação à vida é a de alguém que tenta atravessar de uma margem à outra de um rio. Quando ao nascer, somos abandonados à beira desse rio, com a simples instrução de que o propósito é atingir o outro lado, ao preço que for. Ainda pode-se contar com alguma ajuda, mas a maior parte se estará plenamente sozinho.
Para mim, pura crueldade. Somente um louco daria a existência a alguém sem um manual de instruções. Não consigo sequer operar um microondas do jeito certo, que dirá conduzir uma vida.
Mas, de muito tempo, entendi que o que importa não é a chegada, mas o que acontece durante a jornada.
O início é a parte mais simples. A profundidade rasa do curso d’água ainda permite que a superfície dos seus pés toque nos cascalhos e nas folhas que permeiam seu solo. E, se for preciso, seus pais podem dar uma ajuda, segurando um em cada uma de suas mãos. Mas, eventualmente, você estará sozinho. E precisará aprender a flutuar e a nadar. O problema é que não há como voltar, não há como treinar. O rio vai se desfazendo às suas costas à medida que se avança no percurso. Sendo assim, você vai engolir água. E vai se engasgar. Seus músculos por muitas vezes fatigarão. Inclusive, haverá quem queira lhe afundar, atuando tal qual uma âncora. E você vai se despir de todos esses impedimentos. E vai continuar. Pois ainda há muito por vir.
O amor – sim, ele. Com todos os seus clichês e dores – é, indiscutivelmente, o que de melhor sobrevêm. Aquela jangada que surge no meio do trajeto, úmida e coberta por musgos, quase se desfazendo, que lhe fornece abrigo nos momentos em que a correnteza está muito forte, esse é o amor.
Assim que me sinto em relação a você. Sinto que você é o colete salva-vidas que torna essa maratona aquática mais fácil de ser vencida. Alguém que seria capaz de ficar segurando o fôlego debaixo da água, para que eu conseguisse respirar melhor. Ainda que não precise. Não precisa, pois nadamos juntos, um ajudando ao outro, sem que nem um dos dois afunde.
E quando água entrar nos seus olhos, eu vou estar lá para tirar. Te carregar nos meus ombros quando estiver cansada. Dar um pouco do meu ar na hora que lhe faltar oxigênio (até porque você tem asma), se precisar. Só gruda em mim e não largue jamais.
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