Retra(t)ços

Informação
Alimento da alma
Difícil pensar
Quando a fome tira a calma

Como não roubar?
Se o que se tem é incerteza
De que se na manhã seguinte
Vai ter comida na mesa

Enquanto o rico
não abre (mão) a mente
Na favela, pobre se digladia
“Quem se importa?
Preto nem é gente”

Culpa presidente
Exige impeachment
Elege cunha
Bolsonaro
Se faz de vítima

É fácil(,) militar
Afirmar, defender (bater)
Esquerda tem caviar
direita, vou(l)ver

País do futuro?
Do renascer da hipocrisia
De dizer que tudo vai melhorar
Não hoje
Mas um dia

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Imaginativos Suicidas Anônimos

Eu sou viciada em imaginar.

Acho que nunca tive escolha, na verdade: as realidades que invento sempre foram uma distração daquela diante de meus olhos. Uma fuga. Mas do que eu fujo? Das responsabilidades. Do tédio. Da monotonia. Da tristeza. Da ignorância. Da falta de importância que eu tenho e da falta de alegria que eu sofro. Do vazio dentro de mim que foi deixado por um criminoso sem rosto, sem nome, sem voz e sem sombra.

Essa falta de apego a vida faz eu me sentir culpada, com mais medo e triste. Eu não quero as coisas assim, mas não sei como mudá-las.

Monstros e fantasmas me assombram em tudo o que faço, planejo, possuo ou me dedico. Até aqueles que eu gosto. Eu tenho uma grande vontade de amar, mas não sei porque, não consigo. Ainda que o amor seja como um balão que se enche morna e lentamente dentro da gente, eu me sinto absurdamente só e vazia. Cada dia duvido de mais coisas. E tenho mais certeza de outras.

Por exemplo, não duvido que um mínimo de insanidade exista em mim. Tenho medo da minha mente. Tenho certeza de que nada nesse mundo possa me satisfazer completamente – corpórea e espiritualmente (ainda que, no fundo, eu deseje estar errada). Existe beleza em todo lugar, e eu queria viver apenas para contemplá-la, mas não consigo. Queria vê-la em mim, mas não consigo. Queria não ter tanto medo, avareza, desconfiança, amargura em mim. Mas tenho. Não queria estar tão ansiosa pela minha morte para tudo que me cerca.

Mas estou.

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Nêmesis.

O universo não liga para os meus erros.

Eles acontecem. Fim.

O universo não liga se não superei o que passou.

Ele segue. E o que eu pretendia para o futuro vira o que eu desejava para o passado.

O universo não liga se eu me sinto só.

Ele programa o caos, e lá estou eu.

O universo não liga para os meus medos.

(Ele não liga nem para o que acredito.)

O universo não liga e nunca vai ligar para o que eu sinto em relação ás pessoas.

Ele faz todas seguirem seus caminhos.

Sem mim.

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