Cotidianidades

O senhor atendia sentado em um banquinho por detrás do balcão empoeirado e mal encerado.

Qual seria a sua história?

Sua lojinha era de ferragens, de instrumentos para casa. São muito comuns esses tipos de lojas, caso tenha percebido. Mas ele não estava preocupado com a concorrência. Em bem verdade, aquele não era um trabalho, propriamente dito. Mais passatempo do que qualquer outra coisa. Vender algo era quase um milagre, ainda mais com o seu já conhecido mau-humor. Ainda assim, essa era a ocupação que tinha e praticava agora que se aposentara da siderúrgica.

A sua vida tinha sido à base de ferro e fogo, de forma literal. Filho de metalúrgico, tinha aprendido com o pai as habilidades que hoje em dia são raras. Exerceu a mesma função que o seu professor, sem nenhum desprazer. Ao contrário, amava o que fazia. Só que tinha chego a hora de descansar as mãos já calejadas de tanta fundição. Agora, além de arriscar algumas esculturas com a matéria-prima do qual manuseio era mestre, tocava a lojinha que levava o sobrenome da família.

Não que tenha o feito de bom grado, ao menos de início. Tentava manter a rotina de seus velhos anos na indústria, com certas mudanças. Acordava todos os dias às 6h e tomava o café com pão que sua velha fazia com todo o carinho que seu coração idoso comportava, enquanto ele tomava banho. Ela é e sempre fora para ele a sua reposta à pergunta “o que é o amor?” (juntamente com a sua mãe, que o observava dos céus há um certo tempo). Foi uma das que mais o estimulou a não ficar parado logo após se aposentar, sugerindo e descartando possibilidades. ‘Mas agora que parei queria passar mais tempo com você’ disse, em contrapartida. ‘Nem pensar’ ela retrucou ‘depois de tanto tempo não vou permitir você coçando o saco no sofá e me atazando o dia todo. Vai arranjar o que fazer’. Era ranzinza desde quando se apaixonaram na adolescência. Obedeceu-a complacente.

Após os trâmites necessários abriu a bendita lojinha. Com a idade, também vinha um cansaço que surgia mais facilmente, que tentava curar com sonecas recorrentes. Quando passava muito tempo sem nenhum cliente adentrando seu estabelecimento, cochilava com o queixo apoiado em sua palma fechada e o cotovelo em cima do balcão. Quando não, suas pálpebras pesadas fechavam e abriam em ciclos indefinidos. Até que era acordado com a repentina batida ao balcão de um pedreiro à procura de uma pequena pá ou a de uma senhora que perdera o parafuso de sua máquina de costura. A eles, atendia com resmungos por o terem acordado, mas os concedia meio sorriso quando iam embora. Logo após, voltava às dorminhocadas.

Se não houvesse clientes durante a manhã, quem o acordava pontualmente ao meio-dia era Marcinha, a quem tinha atribuído um apelido referente à sua função: trazer as quentinhas, tratando-a por esquentadinha. Batiam papo diariamente, por vezes Marcinha juntando-se a ele no almoço, cada um com seus talheres de plástico e o prato de alumínio, desde quando ele montara a loja ali. As palavras escapavam rápido dos lábios finos daquela nordestina baixinha, fazendo com que ele se perdesse nos diálogos e somente acenasse, quando ela dava suas pausas. Ao final, tomavam um cafézinho no copinho de plástico com ela partindo logo em seguida para distribuir as refeições restantes. Dali ele ausentava-se para a sesta, rezando para que ninguém o perturbasse na busca, quem sabe, de uma chave inglesa.

Quando o sono era parco, tinha sempre a companhia do seu radinho de pilha, que passava a tarde grudado à sua orelha. Com ele escutava de tudo, sendo muito mais informado que muita gente por aí. Não era o maior fã de televisão. Ouvia nele os placares dos jogos na noite anterior, a previsão do tempo e dos desastres que aconteciam no mundo, para os quais sempre tinha uma expressão de ‘o mundo está perdido mesmo’. Ali também relembrava os boleros que ele e sua velha frequentavam quando eram mais novos, nas noites de sexta-feira. Agora as cadeiras de ambos não os deixavam dançar como antes, mas ainda ouviam juntos alguns discos.

Assim que dava o início do fim da tarde, baixava a porta de ferro pesada que guardava seu ponto. Protegia sua careca com o chapéu já surrado e dava tchau aos amigos lojistas adjacentes. Ia, então, para a sua outra obrigação diária. A pé sim, pois gostava de caminhar, não gostava de ônibus e não fazia questão de usar o carro mais. Entenda-se: era adepto de uma vida de simplicidade quase franciscana. Quem não o conhecesse poderia dizer que era adepto do budismo. Que fizera um voto de pobreza, vendo sua roupa desfiada do tempo. Além do mais, as passadas em silêncio o deixavam admirar a beleza da tarde que caía sem muito sol e pensar em quão gratificante era a sua vida.

Aos poucos ia se aproximando do colégio em que o netinho estudava. Todos os dias o buscava às cinco, já que a sua filha e mãe do molequinho só saía mais tarde que isso do trabalho. O fazia com gosto, já que adorava ouvir as experiências do menino de 5 anos que conversava e achava que já era um adulto. Era de uma felicidade sem tamanho o buscar e ver o sorriso que formava ao ver seu vô no portão da escola, seguido de um abraço apertado. Percorriam o caminho em direção à casa – sua filha e o pequeno estavam lá agora que ela, ranzinza que nem a mãe, decidira pelo divórcio – conversando sobre os desenhos que tinha feito e as palavras novas que tinha aprendido.

Chegavam para o café da tarde dos adultos e a janta da única criança. A sua mãe chegava logo após, para comer também, bater um papo rápido e depois rumar com o menor em direção à casinha dos dois nos fundos, para ele fazer os deveres de casa e ela resolver as pendências do escritório. Os velhinhos ficavam batendo prosa na sala ou na frente de casa na cadeira de balanço. O que significava na verdade ele ouvir a esposa tagarelando e atualizando-o sobre a vida dos vizinhos e de pessoas que nem sequer fazia ideia de quem eram. Mas gostava de ouvir a voz da sua velhota, interrompendo-a por vezes sem mais nem menos para lhe dar uma bitoca a qual ela respondia ficando com as bochechas rosadas e reclamando pela interrupção.

Assim ficavam até tarde, só parando para tomar uma sopa antes de deitar. Ao passarem os cobertores, cada um fazia sua oração, agradecendo por mais aquele dia de vida e rogando pela saúde tanto dos amigos tanto quanto dos inimigos. Dali dormiam grudados um no outro, do mesmo jeito desde quando começaram partilhar a mesma cama.

Tinha a vida assim, sem muitos altos e baixos. Monótona, poderia se dizer. Sem grandes aventuras, mas também sem grandes preocupações. E talvez seja esse o objetivo final. Não ter uma loja de ferragens, isso não, mas ter uma vida simples, que é, para esse narrador, a das mais sedutoras. A sociedade nos empurra gostos, desejos e sonhos, todos fabricados para parecerem que são nossos quando na verdade são produto do interesse de vários outros agentes. A felicidade não necessariamente está do outro lado mundo, nem no celular mais novo, nem no suposto amor que não passa de aparências.

Ela está, portanto, dentro de si mesmo.

Fica feito o convite a uma vida mais simples.

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