Juventude Desanimada

O trompete vai ressoando pelas caixas de som. É o que acalma, depois de um dia de trabalhos intensos. Sozinho com o sopro de Miles à meia-luz improvisada de um abajur coberto por uma camisa escura. Se Coltrane se juntar no sax, somos um trio perfeito. Os dois em um coito musical de sons perfeitos, comigo complementando-os com suspiros de uma respiração pesada. Todo esse trabalho fui eu mesmo que me dei, ao longo do dia. Um emprego de languidez. Minha remuneração é no bar, substituindo as dores de cabeça por um fígado fragilizado.

Aproveito para gastar o grafite arrastando-o pelas também negras linhas das folhas alvas do caderno sem capa. Da onde surgiu tal convenção? Folhas negras sob letras brancas talvez fosse mais elegante. O quadro negro do jardim de infância fora muito mais sedutor que os industrializados pilots da lousa branca. Na época do vestibular, a equação: miopia leve + o reflexo halógeno naquela tela branca de dois por um metro era igual a um fichário vazio e canetas cheias, tal qual minha mente de dúvidas.

Acabou não fazendo muita diferença. Se a eterna busca da vida é a felicidade, sinto estar indo contra o vento (tempestade). Melhor: estou parado em uma encruzilhada, sem ideia de para onde seguir. E tem um trabalho de umbanda ali no canto. Ao invés de questionar-me para onde devo ir, encosto o cóccix no asfalto agora não tão quente e abro um livro. Caso bata a fome, como a galinha assada com farofa daquela vasilha de barro. Se der sorte, quem sabe não tem um vinho barato ou uma caninha ali para molhar a garganta.

Mas veja que não estou reclamando da minha vida.

Para mim, fazê-lo é ultraje tal qual o suicídio.

Dei sorte na roleta russa da vida de o tiro que me trouxe à vida atingir uma família com condição social razoável e em um país onde não tenho de preocupar-me com muito. Tenho tudo e até mais do que o necessário para a vida boa. E, ainda assim, por vezes os pensamentos arrodeiam a solta conclusão de que ela não é suficientemente boa. E, por isso, por sou infeliz. O problema é o momento e a geração de juvenis melancólicos ao qual faço parte. Batalhamos pouco e temos muito.

“Mãe, quando você tinha a minha idade, tinha tanto jovem depressivo como agora?

Não. Quando a gente era criança, depois da escola só brincava. E quando crescia, trabalhava pra ajudar em casa“

A nostalgia daquilo que nunca nos pertenceu também é um dos fios condutores dessa corja de mal-agradecidos da qual me incluo. Bandas já enterradas são ressuscitadas, câmeras que tinham por defeito as suas fotos saírem descoloridas voltam à moda. Uma saudade de algo que parecia mais feliz. Não é de se admirar, porém. Somos filhotes de apartamentos com a visão tapada pelas grades das janelas. Diversão é playground de plástico com uma piscina clorada ao lado.

Viver se tornou um sofrimento sem dor.

Que vergonha de nós

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