desaba(fa)ndo

A música que toca no alto falante é calma.

A chuva cai, também calma.

O ventilador vai da direita pra esquerda e faz o caminho inverso, numa interminável… calma.

Tudo em minha volta, dizendo “calma”. Todos dizem “Calma. O tempo cura tudo.” Mas eu não quero calma. Eu quero gritar, eu quero destripar o meu travesseiro, eu quero estourar a caixa de som com gritos intermináveis e quero acordar os vizinhos ás 3hrs da manhã com urros de dor. Pois é assim que me sinto. Urrando.

O mundo fez a gentileza de me dar algo que eu queria muito só pra ver minha reação quando tirasse a tal coisa de mim. Então toma: essa é a minha reação. É assim que você me deixou. Sim, me deixou. Não fiquei assim sozinha.

Mas fiquei assim, sozinha.

Talvez a dor não seja de saudade. Seja de vazio. Você passa dias fazendo algo que trás aquela sensação morna, serena e feliz, pra ter aquilo substituído pelo cinza, pelo frio – não o frio “bom”, mas o ruim, que não passa nem depois de um banho quente, um pijama grosso e dois cobertores – e pela solidão. E a solidão é subestimada.

A intensidade de poucas semanas pode vencer um ano de familiaridade, se o caminho certo for tomado. E foi esse que eu tomei. Mas não fui á pé. Fui num carro novo, brilhante, possante, descendo a estrada sem limite de velocidade, confiante de que não despencaria de um precipício ou daria de encontro a uma parede. E a medida que as marcas de quilômetros passavam, imaginei que eram as barreiras que eu, de alguma forma, facilmente superava.

Ledo engano. Mas não acabei batendo o carro. Ele foi lentamente deixando de funcionar. Tornou-se velho, enferrujado, e quando finalmente deixou de funcionar, me deixou isolada no meio de um deserto.

E nele estou por enquanto. Pedindo carona. Seguindo a pé.

Tomando medidas preventivas, também. Mas não pense que eu estou fazendo o caminho de volta.

Eu estou seguindo em frente, por mais cansada, com medo, angustiada e só que eu esteja. Já cansei das pradarias, dos altos e baixos da montanha e do morto deserto. Estou procurando o mar – o revolto, o inquieto, assim como eu – e eu e ele, sozinhos, nos completaremos. Assim espero.

Até lá, mandarei notícias do caminho.

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