De volta

Esperava que aos poucos aquelas finas lâminas de chuva preenchessem o espaço ao meu redor. Aguardava o momento em que aquela água acumulasse ao ponto de me erguer até a beirada daquele fosso em que a saída era quase impossível de avistar.

Estava perdido.

O plano era viável, até. Lógico. Ainda que as chances de afundar naquelas gotas que deveriam me salvar fossem superiores, era a única saída. E com a constância daquela chuva que escorria pelas paredes alodoadas do concreto mais firme e duradouro que já tinha conhecido, não demoraria muito a saber qual seria o meu destino.

Me rendi. Por muito tempo – mais que sou capaz de lembrar- tentei penetrar as finas frestas dentre aqueles tijolos de cor da noite e me impulsionar acima. Então, todas as vezes, despencava. Me machucava, mental e fisicamente. As escaras da pele se curavam sozinhas, mas a esperança de sair dali minguava. Até que me rendi.

Me rendi.

Até que, primeiro, veio o sol. O calor que trouxe por dias seguidos me confortou. Depois de períodos de frio excruciante, dos que surgem e resfriam até o mais íntimo dos sentimentos, que dói dentro de si. Mas então, a esperança que já era pouca, a pó se reduziu. E o sol, que surgiu despretensiosamente, permaneceu ali, em esplendor. Afugentou a chuva como se seu predador fosse. Secou o que de líquida vontade de viver existia ao meu redor.

Desisti.

Eis que uma sombra surgiu no chão. Vinha do alto, da onde o sol raiava. Negros olhos curiosos me observavam apoiados naquela longínqua beirada. O rosto a que pertenciam era jovem, mas carregava uma alma pesada, forte, que transparecia por aqueles dois círculos que agora focavam em mim.

“o que você está fazendo aí?” o rosto bradou

“não sei” uivei em retorno “sempre existi aqui”

“quer ajuda para se erguer?”

Sem esperar pela réplica, estendeu o braço. Como por magia, alcançou minha mão e me puxou acima. Rápido, como se a distância nem existisse.

E não existia.

Olhei para as minhas costas, da abertura que saí e ela não mais residia ali. Em verdade, acredito que nunca tenha havido poço algum. Em seu lugar, uma poça ocupava o espaço. Um enlameado de tristes (in)certezas, agouros mentais e emoções hesitantes.

“está bem?” retornou sorrindo

E o que era triste, se foi.

Me reergueste da maior profundeza de mim. Preencheste esse inóspito vazio que permeava todas escalas desse ser, que agora, em todas partes, é você também. E se esses olhos, que agora te refletem, brilham hoje é porque tiraste a viseira que os tampava com a mão longa de dedos finos que agora faz um carinho renovador percorrendo os fios do meu cabelo.

Se eu era palavra bruta, me dilapidaste em uma linda poesia de amor.

Obrigado.

(mal posso esperar pra te ver de novo, amor)

 

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