Zoo

Estava lá, entremeio papeis e canetas. Estava? Entre os dedos das mãos, mechas de cabelo que puxava em desespero. Repetia para si: “não aguento mais!” para depois continuar. Não mais questionava, não atualmente. O piloto automático já estava ligado há muito tempo. Mas até ele estava perdido, sem um destino para onde conduzir. Enquanto isso seguia, navegando pelo vácuo que existia entre o agora e o futuro.

Engraçado como tudo tinha mudado desde a infância. E tão rápido, obviamente. Aos poucos foi lembrando. E as mesmorias, também lentamente, trouxeram as questões novamente: que caminhos tinham desembocado nessa realidade? Essa mesma, de esquecimentos, de pessoas rasas e de laços inexistentes.

Teria valido tudo a pena?

“Logo eu que sempre achei que me achava diferente”

Se sentia como a única pessoa que possuía uma visão além das que as outras tinham. Se elas ostentavam quadrados em seus olhos e mentes, ia adiante, era retângulo. Enxergava pelas beiradas aquilo que era aparente, mas que outros não eram capazes de ver. E não parava por aí. Queria ser circular. Entender de tudo e todos, cada detalhe que fosse possível perceber e incorporar a si. Que os trezentos e sessenta graus fossem poucos, que fossem uma parcela de tudo que fosse ver durante a sua existência. E ainda assim, estava ali. Sob as grades de obrigações para objetivos que talvez nem fosse seus.

Talvez dos pais. Dos amigos, da sociedade. Mas não seus.

Levantou da mesa e foi à cozinha. Passar um café talvez, clarear a mente com o líquido negro.

Os olhos encaravam por dentro da janela de cima da pia. A única delas que refletia o verde, já que as outras, dos quartos e da sala apontavam para outros prédios, esses de paredes lisas. Medianeiras. Aquela apontava para um verde desbotado, de grama pisada. “Tal qual a esperança para humanidade”.

O que teria acontecido?

Onde teria tudo desencaminhado, feito aquela curva que parecia interminável, tão inclinada que parecia que seu corpo e espírito iriam tombar a qualquer momento? Se fosse trem, descarrilaria. E toda sua bagagem, todo o acumulado que transportava em seus vagões se espalharia pelo vácuo em que os trilhos tinham sido construídos. E se perderiam.

Uma xícara, duas e meia.

A cafeína percorreu desde as suas mais profundas células até os poros da pele. Os fechou e causou um arrepio.

Libertou-se.

Voltou à mesa, reuniu os papeis e gentilmente os atirou na lixeira. Juntou os outros do armário e das gavetas  naquela pequena caixa no chão. Tomou banho e saiu. Primeiro um jornal, para um novo apartamento. Quem sabe uma casa com quintal. Talvez um novo emprego, talvez nem um por agora. Talvez um amor pra ajudar na mudança. Mas antes o jornal e depois a loja de instrumentos que sempre ignorara. Um trompete seria o próximo. Aprender a tocar Blue in Green em seguida.

Pequenos degraus, mas seus. Da escada que, agora, subiria e construiria por vontade própria.

Tal qual um animal preso em uma jaula, a prisão que lhe foi imposta aos poucos estava se tornando a sua única realidade. Sem antes e um depois não tão entusiasmante. Talvez se esse sopro de consciência tivesse vindo alguns movimentos de ponteiro de relógio depois, seria tarde demais. Ainda que se rebelasse, enfrentasse o motivo daquele enclausuramento, seu domador (ou seja, sua própria mente, ainda que por pressões externas) e vencesse, quando o que de resto não mais via finalmente aparecesse, não saberia lidar com todas as (re)descobertas. Voltaria para sua cela. Colocaria de volta as correntes que lá no passado pareciam a escolha correta a se fazer. A prisão, agora, seria por escolha, como um dia antes fora sem perceber.

Ia ainda sem caminho certo, mas, agora, buscando a si.

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