Dos domingos

Hoje o dia é dela.

Por mais que não soubesse desde antes, todos os domingos se tornaram o seu dia. Parece que o seu eu se faz tão forte que mesmo de distâncias indescritíveis seu espírito consegue se fazer presente.

Mas claro que eles são melhores quando ela está por perto.

Talvez numa tentativa fajuta de me deixar mais confortável e diminuir sua ausência, ela controla a natureza. Se o dia está ensolarado, o esconde entre nuvens. Se o seu cinza está muito escuro, deixa passar um pouquinho de luz, somente o suficiente pra lembrar que sem sua presença, os domingos não se permitem ter cor.

Penso que por vezes, quando a saudade aperta, ela deixa chover. Então o dia escurece mais cedo, e suas lágrimas percorrem o vidro da minha janela fechada. E eu escorro junto delas.

E eu também faço minha parte.

Retribuo a todo esse esforço que ela desempenha pra se fazer presente com um pequeno ritual. Levanto da cama, que é o meu lar durante os finais de semana, e vou à cozinha. Ela vale o esforço. Preparo o meu café, e agora não mais na cafeteira, mas sim  naquela velha panela enferrujada que me traz um gosto que faz lembrar dos que tomei à beira da sua mesa no quintal. Fazê-lo, coando-o no encardido filtro de pano me faz sentir que aquele ritual é um pouco mais meu e, assim, um pouco mais seu.

Volto ao quarto, coloco a xícara no batente da janela e abro-a. Esqueci de um detalhe: ela também controla o vento. Abro a janela e sinto aquela lufada de ar enrubescer meu rosto. Não importa em que estação do ano, ela faz ele ficar minimamente frio, somente o suficiente para me fazer sentir falta dos seus mornos abraços, que me socorriam quando a temperatura era baixa, fosse a do clima ou a do coração. Tomo uns goles de café numa tentativa fajuta de tentar me aquecer como ela faz.

E repito isso até que o café acabe,  conforme a luz do dia vai se esvaindo e as luzes dos prédios e do salgueiro vão se acendendo, enquanto observo as montanhas verdes da Tijuca que arrodeam meu quarto. Fico longe da televisão, pois lá está passando o programa que assistíamos juntos depois do café que tomávamos juntos. Então fico lembrando de você na poltrona do lado, fazendo “shh, eu quero ouvir” enquanto eu falava para mudar o canal. Depois que aceitava que tinha perdido, me colocava a observar sua nuca, agora aparente depois desse nó genial que você dá com o próprio cabelo.

E assim como era quando passávamos juntos essas horas finais desse dia em que Deus descansou, eu pensava em o quanto era sortudo por estar ali naquele momento e te ter junto de mim. Me coloco a pensar em quantos domingos eu ainda passarei desse jeito, mas agora ao teu lado, na grande varanda do apartamento que sonhamos em comprar.

Quem sabe dessa vez com um golden retrevier dormindo aos nossos pés e os gêmeos correndo pela sala.

A única certeza é que teu abraço continuará morno e os domingos mais perfeitos ainda.

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