De todos os dias

As primeiras horas do dia são as que eu mais gosto.

Aquele momento onde tudo é o mais completo silêncio e lentidão. Onde até mesmo o sol, em todo o seu esplendor, está ainda preguiço, abrindo somente um de seus olhos e deixando a manhã que nasce à meia luz, só o suficiente para deixar o seu céu em um gradiente que vai do laranja claro, passando pelo roxo e desaguando no restante de escuridão que ainda restou da madrugada que se esvai.

Gosto de observá-lo. Ouvir do seu silêncio.

Gosto também de observar o contorno que essas luzes, recém novamente nascidas, fazem nas montanhas que cercam a Tijuca. Essa mesma clareza tímida que entra pelas frestas da minha cortina rasgada, me permite ver que o contorno dessas montanhas foi livremente inspirado nas curvas que desenham o seu corpo como um todo. Agora, vejo suas costas nuas e a linha do seu tronco, que inicia do seu quadril meio coberto pelo lençol e termina debaixo do seu braço.

A mãe natureza, do alto do pedestal de sua inveja, não poderia deixar isso barato. Então te esculpiu em rochas altas o bastante para todo o resto do mundo pudesse vê-las.

Essas mesmas costas que, agora ao acordar um pouco melhor, percebo que não estavam ali durante essa noite, onde era seu devido lugar, colado ao meu corpo.

Então o dia já inicia com a ausência que é não ter ter ao despertar. E ela permanece até o retorno à cama, para ser somente sarada nos sonhos que eu diariamente fantasio enquanto minha mente se desliga do mundo ao redor. Mas agora não estou dormindo. Estou no carro, ligando o rádio que agora ressoa músicas que me lembram você.

Parece que o dia adivinhou que eu iria acorda melancólico então não deixou o sol sair muito. Uns respingos caem no pára-brisa enquanto a Lana sussurra nos altos falantes do carro. As pessoas na rua andam devagar, como que para acompanhar a velocidade dos meus pensamentos. Que na verdade nem sequer andam, percorrem círculos que retornam a você.

Respiro fundo.

O sinal abre e chego perto do trabalho. A catraca do estacionamento sobe e o porteiro me olha com estranheza. “São olheiras de algo que se foi” penso em dizer. Sorrio e sigo para o elevador. Chego à porta do escritório e vejo tudo fechado. Vou olhar as horas no relógio e vejo que hoje é sábado. Essa é a terceira vez nesse ano.

Volto para casa com um pacote de pães e de café. Quando coloco as chaves na fechadura, ela se abre. Sinto uma lufada de ar com o seu perfume e o sol, agora forte, entrando da janela da sala iluminando o sofá. Te encontro sentada na beira da cama  chorando e agarrada ao nosso porta retrato que fica na mesa do abajur.

Estava ali.

Te abraço com força e com o mesmo silêncio daquela manhã. Nada mais é necessário.

Só te peço que, por favor, fique (pelo tempo que quiser).

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