Uma Delas.

Eu quero ser uma Delas.

Mas o que exatamente isso significa, Ofélia?
Exatamente isso que eu disse. Uma Delas.

Mas quem são Elas?, você me pergunta.

Ser uma delas é ter a permissão pra me olhar no espelho e sentir o que eu sinto quando olho para elas. É olhar pra aquele monte de maquiagem e não ver uma máscara, mas sim um potencializador do que eu já tenho, já sou. É olhar pra aquela roupa que eu normalmente não me permitiria usar em qualquer ocasião simplesmente por achar que não posso. Não mereço.

É como se dentro da minha cabeça tivesse eu e aquela vilã de série adolescente que não consegue ver alguém ser melhor do que ela e tem que acabar com isso. Só que Elas não são vilãs. São Elas. Tanto que são várias, e a maioria nem se conhece. (Talvez, na verdade, elas estejam associadas em alguma forma, como um selo secreto da Deusa que agraciou a Elas com essa beleza de ser e existir que eu acho que me falta)

Só que essa vilã, na verdade, sou eu. Mas só eu que sofro. Eu mesma tiro de mim a chance de botar aquilo que eu acho que uma Delas acharia legal… que me faria menos Eu…

…e mais Elas.

Talvez isso tudo seja tolice. Talvez eu não seja uma delas por simplesmente não ser tão exatamente assim: tão bonita. Tão dona de mim. Dona de minhas ações. Ser eu sem remorsos ou medo. Talvez eu nem deva ser eu sem remorsos depois de tanto tempo tendo aquela vozinha de dentro (ou de fora?) que diz que ser quem eu sou, do jeito exato que eu sou…  é errado.

Não é…exatamente como deveria ser

Como eu deveria querer ser

Como eu deveria tentar ser.

(mas não sou)

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A Maria com quem eu fui.

Sempre achei Maria um nome meio fraco.

Acredite se quiser, só “Maria” sempre me foi muito genérico, tendo perdido o sentido de homenagem há séculos. Mas depois da Maria Luisa, isso mudou. Essa Maria não é em tons pastéis. É a Maria do cabelo castanho, da boca vermelha e da alça preta do sutiã aparecendo – e se isso for por descuido, o é com os outros, que se hipnotizam nela. Parece até meio injusto, essa pele branca reluzindo como o sol, atraindo até a alma mais forte como um simples mosquitinho pra luz.

Se não te cuidares, ela passa como um vendaval e nem sentes. Tem que ter pique, tem que saber conversar, tem que saber acompanhar. Tem que saber se importar, porque pra ela, o mundo importa. Tem que saber que, por mais que tentes olhar no fundo daqueles olhos, vais terminar sabendo nada se ela assim o quiser. No meu dicionário, a primeira definição pra “dona de si” é ela. Se bobear, acabou sendo dona de mim também: com ela eu vou no inferno e volto – e vai continuar que foi bom como viagem de carnaval.

Ela quer saber de ti. Ela quer saber do mundo, do que tá acontecendo. E não quer nem saber do resto. Sinto que ela sabe de tudo, quando na verdade, ás vezes me olha com algumas lágrimas nos olhos, ainda que não estejam aparentes, e me lembra que continuamos perdidas no meio de milhares de luzes que cegam os descuidados – sendo que nem sabemos como fomos parar ali.

É, Malu. A gente tá meio perdida, talvez. Mas vamo, que, juntas, vamos bem.

(continua.)

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guia da reflorescência.

(sugestão: leia enquanto escuta The Living Sculptures of Pemberly, de Jean-Yves Thibaudet e Dario Marianelli.)

Está frio.

Estou só.

Mas estou completa.

A chuva que cai, a música que escuto e as coisas que imagino enquanto olho o céu me dizem que continuo a mesma. Inteira, viva, e, mais importante: aberta a ser feliz. Novas perspectivas surgem e a saudade dá lugar a aceitação. O meu “demorou pra ser mas agora é” pode ser perfeitamente dedicado de mim para eu mesma.

Agora, mais do que nunca, vi que preciso ser inteira, pelo meu bem e por minha integridade. Por tudo o que admiro nas pessoas e desejo para mim, devo ter forças de aceitar os fatos e me recompor, de acordo como deve ser.

Como já disse antes, agora perseguirei o mar. Vou me aconchegar na quietude e meramente admirar as memórias. Vou abraçar minhas paixões, meus deveres e viver outras aventuras – que comecem bem e terminem melhor.

No frio, vou respirar fundo e ouvir o que a chuva tem para me dizer, sentir o cheiro da vida em regozijo com sua renovação vinda do céu, e vou imitá-la.

Na solidão, ou vou dançar até encher a sala, ou farei como faço agora: falarei pelos dedos e para o papel, meu ouvinte mais fiel e conselheiro mais sutil.

Na dor, vou me apegar a momentos como o que vivo ao escrever este texto. Onde a calma e a contemplação guiam minhas ações. Vou me lembrar da alegria morna e reconfortante de ver meus pais abraçados na rede ao meu lado, na varanda, mamãe falando de seus episódios e papai silenciosamente ouvindo tudo. Não preciso disso exatamente para mim, exatamente agora. Só preciso saber que existe e que está ali. Sendo tudo o que eu preciso, onde e como preciso.

Simplesmente… existindo. E nessa atitude simples e pequena, o amor me dá tudo o que tem a oferecer.

(texto escrito em 6.2.16, na varanda da casa no interior, durante uma chuva, no carnaval.)

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The Cold.

(sugestão: leia ouvindo a música A Letter From Limerick, de Adrian Johnston, do filme Becoming Jane.)

The night grows colder and I start thinking of you.

I know I shouldn’t, yet here I am,

Gazing at my porch, where we lied together

For the first, second, third, fourth time…

And yes, I remember every single one of them,

And miss all of them too

– I know I shouldn’t, but I do –

Cause it’s cold.

I’m alone.

And I miss you.

I miss every single one of those days:

Cold, made warmer by your presence.

But now I’m cold again. The days are too.

But there is no warmth

Funny thing is –

Feeling cold only became a problem

After all the time you spent shaking it away.

I know I should

And here I am

Waiting for the warmth to come back,

And this time, I hope for it to stay.

And hope its not from you.

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desaba(fa)ndo

A música que toca no alto falante é calma.

A chuva cai, também calma.

O ventilador vai da direita pra esquerda e faz o caminho inverso, numa interminável… calma.

Tudo em minha volta, dizendo “calma”. Todos dizem “Calma. O tempo cura tudo.” Mas eu não quero calma. Eu quero gritar, eu quero destripar o meu travesseiro, eu quero estourar a caixa de som com gritos intermináveis e quero acordar os vizinhos ás 3hrs da manhã com urros de dor. Pois é assim que me sinto. Urrando.

O mundo fez a gentileza de me dar algo que eu queria muito só pra ver minha reação quando tirasse a tal coisa de mim. Então toma: essa é a minha reação. É assim que você me deixou. Sim, me deixou. Não fiquei assim sozinha.

Mas fiquei assim, sozinha.

Talvez a dor não seja de saudade. Seja de vazio. Você passa dias fazendo algo que trás aquela sensação morna, serena e feliz, pra ter aquilo substituído pelo cinza, pelo frio – não o frio “bom”, mas o ruim, que não passa nem depois de um banho quente, um pijama grosso e dois cobertores – e pela solidão. E a solidão é subestimada.

A intensidade de poucas semanas pode vencer um ano de familiaridade, se o caminho certo for tomado. E foi esse que eu tomei. Mas não fui á pé. Fui num carro novo, brilhante, possante, descendo a estrada sem limite de velocidade, confiante de que não despencaria de um precipício ou daria de encontro a uma parede. E a medida que as marcas de quilômetros passavam, imaginei que eram as barreiras que eu, de alguma forma, facilmente superava.

Ledo engano. Mas não acabei batendo o carro. Ele foi lentamente deixando de funcionar. Tornou-se velho, enferrujado, e quando finalmente deixou de funcionar, me deixou isolada no meio de um deserto.

E nele estou por enquanto. Pedindo carona. Seguindo a pé.

Tomando medidas preventivas, também. Mas não pense que eu estou fazendo o caminho de volta.

Eu estou seguindo em frente, por mais cansada, com medo, angustiada e só que eu esteja. Já cansei das pradarias, dos altos e baixos da montanha e do morto deserto. Estou procurando o mar – o revolto, o inquieto, assim como eu – e eu e ele, sozinhos, nos completaremos. Assim espero.

Até lá, mandarei notícias do caminho.

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emphasis

[em-fuh-sis] – noun, plural emphases  [em-fuh-seez]

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

But I did it, anyway.

 

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[silêncio] [suspiro]

Estamos “naquela” época de novo. A energia do ano começa a minguar, e com ela, a minha também. A serenidade e a melancolia ficam, me fazendo lançar um último olhar para os eventos deste ano, e lembrar dos anos anteriores também.

Passo a analisar a minha conduta, minhas escolhas e minhas respostas para as charadas que a vida propôs. Me arrependo de algumas, me orgulho de outras, e algumas simplesmente evito lembrar. Estas deixam o questionamento se, de fato, cresci em algum sentido com o passar dos meses.

Analiso minha solidão. Minha relação com ela, os aspectos que mudaram e os caminhos aos quais ela me levou, e que em sua “companhia” percorri. Nestes doze mezes juro que tentei dar um fim a ela –  dei chances, beijos, olhares e abraços… até demais. Cheguei a dar tudo de mim, pelos motivos e pessoas erradas, e fui deixada com nada em troca (ou assim pensei).

Em tempo, eu acredito, curei-me da cegueira, e vi que não estava totalmente afundada. Algumas pessoas, e as risadas que juntos dávamos, mantiveram minha cabeça acima da água, dando tapinhas em minhas costas para que eu não me afogasse, afugentando fantasmas ainda mais sombrios que a solidão. A presença destas sempre foi como o momento de pedir “paz” da brincadeira.

A brincadeira em questão? O amor. Sim. O amor romântico, o amor da cumplicidade e da paixão. Depois de tanto tempo o vendo por aí (ainda que na posse de outros) decidi procurar um para mim: sem sucesso.  Nesta altura do campeonato, resta-me dar de ombro e seguir em frente, tentando não ansiar tanto por algo com o qual meus olhos estão familiarizados, mas meu coração não. Talvez seja o momento de segurar-me nos momentos de risadas, lágrimas e brincadeiras que se espalham lentamente entre os dias na memória.

(Afinal, se existe um substituto para o amor, este é a memória.)

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