“nos tornamos amargos ou permitimos a redenção se tornar o foco?”

Tem tanta coisa me incomodando que eu não sei nem por onde começar. Eu não quero  ficar só, eu preciso de companhia. Eu preciso de um abraço. Eu preciso saber que eu não sou uma péssima pessoa por não conseguir confiar em quase ninguém. Eu preciso saber que um dia eu vou conseguir passar uma semana sem sentir que dentro de mim tem uma espécie de balão que se enche sozinho e me deixa sem espaço pra respirar.

Eu preciso aprender a confiar em mim, primeiro. Eu preciso aprender a confiar no amor dos outros. A saber que as minhas experiências não são base pra prever todas as ações alheias. Eu preciso parar de ver TODOS  inimigos. Eu não quero me tornar uma pessoa controladora, uma pessoa extremamente ciumenta, que sufoca a tudo que ama. Eu quero aprender o amor, e não só o sentimento. Saber deixar quem eu amo livre, saber me permitir ser livre pra só assim poder, em algum sentido, pertencer a alguém.

Eu preciso deixar de ser hipócrita.  Todos os meus pensamentos me causam repulsa. Os nos quais eu julgo, os nos quais eu culpo, os nos quais eu odeio. Eu preciso aprender a parar de ter medo do passado, do futuro, de tudo. Aprender a lidar com as consequências das minhas ações. Aprender a perder.

Eu me cobro tanto, me critico tanto, me detesto tanto, que me tornei a minha pior inimiga.  E eu não sei desculpar. Eu não sei perdoar. E eu passei tanto tempo guardando tudo isso que agora estou aqui com uma sensação de náusea, vomitando tudo isso,  só que sem me sentir melhor a medida que vou colocando as coisas pra fora. Quanto mais eu me revelo sobre mim mesma, mais nojo de mim eu tenho. Eu sou tão desimportante pra mim que comecei a achar que sou desimportante pra todo mundo.

Eu vivi tanto tempo no mundo da imaginação,  dentro dos meus “talvez”, de olhos fechados, que agora, ao acordar, me acometo de uma espécie de fotofobia. Mas não é exatamente a luz que me provoca a dor. É ver o que ela ilumina. É a sensação de descobrir um local de desova de corpos de um assassino em série ativo por anos, de encontrar um cativeiro onde alguém foi mantido em condições sub-humanas –  um cheiro fétido, um ambiente abandonado por Deus.

Nessas horas, eu me desespero. Afinal, é a mim mesma que encontro, com feridas abertas, com cicatrizes nojentas e desesperança no olhar. E é como se eu tentasse correr na minha direção, para me abraçar, para me consolar e dizer que está tudo bem agora, que jamais ninguém (ou eu mesma) há de me machucar daquele jeito de novo, mas algo me impedisse, como uma espécie de magia que me leva de volta para o início da trilha.

E isso cansa. Isso só piora tudo – ver o dano que eu causei sem poder fazer nada. Jon Foreman questionou uma vez sobre o que fazemos diante deste cenário: nos tornamos amargos ou permitimos a redenção se tornar o foco?

E eu tento, Jon. Eu tento permitir que o perdão saia em forma de palavras de dentro dos meus pulmões, eu tento permitir que a redenção ocorra por meio dos meus atos, mas eu não consigo. Eu não sei como.

Eu já me desesperei demais olhando esse cenário. Já corri de pânico, já tentei vê-lo como um local para recomeçar, já tentei deitar ali e deixar os escombros me cobrirem.

Já tentei pinta-lo como um cenário bonito. Nada funciona.

Eu só queria parar de ter medo de mim. Queria parar de ter medo da próxima vez que vou me convencer a acreditar nas piores coisas sobre mim. Queria ser capaz de ver em mim as coisas bonitas que pessoas mais bonitas ainda me falam. Ser capaz de me abraçar e me carregar para fora desse cativeiro no qual tenho me mantido nos últimos dez anos e passar a me nutrir do amor e do carinho que eu mesma sei que sou capaz de me dar, ao invés de cruelmente me manter acordada por validações que se esvaem num piscar de olhos.

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Uma Delas.

Eu quero ser uma Delas.

Mas o que exatamente isso significa, Ofélia?
Exatamente isso que eu disse. Uma Delas.

Mas quem são Elas?, você me pergunta.

Ser uma delas é ter a permissão pra me olhar no espelho e sentir o que eu sinto quando olho para elas. É olhar pra aquele monte de maquiagem e não ver uma máscara, mas sim um potencializador do que eu já tenho, já sou. É olhar pra aquela roupa que eu normalmente não me permitiria usar em qualquer ocasião simplesmente por achar que não posso. Não mereço.

É como se dentro da minha cabeça tivesse eu e aquela vilã de série adolescente que não consegue ver alguém ser melhor do que ela e tem que acabar com isso. Só que Elas não são vilãs. São Elas. Tanto que são várias, e a maioria nem se conhece. (Talvez, na verdade, elas estejam associadas em alguma forma, como um selo secreto da Deusa que agraciou a Elas com essa beleza de ser e existir que eu acho que me falta)

Só que essa vilã, na verdade, sou eu. Mas só eu que sofro. Eu mesma tiro de mim a chance de botar aquilo que eu acho que uma Delas acharia legal… que me faria menos Eu…

…e mais Elas.

Talvez isso tudo seja tolice. Talvez eu não seja uma delas por simplesmente não ser tão exatamente assim: tão bonita. Tão dona de mim. Dona de minhas ações. Ser eu sem remorsos ou medo. Talvez eu nem deva ser eu sem remorsos depois de tanto tempo tendo aquela vozinha de dentro (ou de fora?) que diz que ser quem eu sou, do jeito exato que eu sou…  é errado.

Não é…exatamente como deveria ser

Como eu deveria querer ser

Como eu deveria tentar ser.

(mas não sou)

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A Maria com quem eu fui.

Sempre achei Maria um nome meio fraco.

Acredite se quiser, só “Maria” sempre me foi muito genérico, tendo perdido o sentido de homenagem há séculos. Mas depois da Maria Luisa, isso mudou. Essa Maria não é em tons pastéis. É a Maria do cabelo castanho, da boca vermelha e da alça preta do sutiã aparecendo – e se isso for por descuido, o é com os outros, que se hipnotizam nela. Parece até meio injusto, essa pele branca reluzindo como o sol, atraindo até a alma mais forte como um simples mosquitinho pra luz.

Se não te cuidares, ela passa como um vendaval e nem sentes. Tem que ter pique, tem que saber conversar, tem que saber acompanhar. Tem que saber se importar, porque pra ela, o mundo importa. Tem que saber que, por mais que tentes olhar no fundo daqueles olhos, vais terminar sabendo nada se ela assim o quiser. No meu dicionário, a primeira definição pra “dona de si” é ela. Se bobear, acabou sendo dona de mim também: com ela eu vou no inferno e volto – e vai continuar que foi bom como viagem de carnaval.

Ela quer saber de ti. Ela quer saber do mundo, do que tá acontecendo. E não quer nem saber do resto. Sinto que ela sabe de tudo, quando na verdade, ás vezes me olha com algumas lágrimas nos olhos, ainda que não estejam aparentes, e me lembra que continuamos perdidas no meio de milhares de luzes que cegam os descuidados – sendo que nem sabemos como fomos parar ali.

É, Malu. A gente tá meio perdida, talvez. Mas vamo, que, juntas, vamos bem.

(continua.)

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guia da reflorescência.

(sugestão: leia enquanto escuta The Living Sculptures of Pemberly, de Jean-Yves Thibaudet e Dario Marianelli.)

Está frio.

Estou só.

Mas estou completa.

A chuva que cai, a música que escuto e as coisas que imagino enquanto olho o céu me dizem que continuo a mesma. Inteira, viva, e, mais importante: aberta a ser feliz. Novas perspectivas surgem e a saudade dá lugar a aceitação. O meu “demorou pra ser mas agora é” pode ser perfeitamente dedicado de mim para eu mesma.

Agora, mais do que nunca, vi que preciso ser inteira, pelo meu bem e por minha integridade. Por tudo o que admiro nas pessoas e desejo para mim, devo ter forças de aceitar os fatos e me recompor, de acordo como deve ser.

Como já disse antes, agora perseguirei o mar. Vou me aconchegar na quietude e meramente admirar as memórias. Vou abraçar minhas paixões, meus deveres e viver outras aventuras – que comecem bem e terminem melhor.

No frio, vou respirar fundo e ouvir o que a chuva tem para me dizer, sentir o cheiro da vida em regozijo com sua renovação vinda do céu, e vou imitá-la.

Na solidão, ou vou dançar até encher a sala, ou farei como faço agora: falarei pelos dedos e para o papel, meu ouvinte mais fiel e conselheiro mais sutil.

Na dor, vou me apegar a momentos como o que vivo ao escrever este texto. Onde a calma e a contemplação guiam minhas ações. Vou me lembrar da alegria morna e reconfortante de ver meus pais abraçados na rede ao meu lado, na varanda, mamãe falando de seus episódios e papai silenciosamente ouvindo tudo. Não preciso disso exatamente para mim, exatamente agora. Só preciso saber que existe e que está ali. Sendo tudo o que eu preciso, onde e como preciso.

Simplesmente… existindo. E nessa atitude simples e pequena, o amor me dá tudo o que tem a oferecer.

(texto escrito em 6.2.16, na varanda da casa no interior, durante uma chuva, no carnaval.)

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The Cold.

(sugestão: leia ouvindo a música A Letter From Limerick, de Adrian Johnston, do filme Becoming Jane.)

The night grows colder and I start thinking of you.

I know I shouldn’t, yet here I am,

Gazing at my porch, where we lied together

For the first, second, third, fourth time…

And yes, I remember every single one of them,

And miss all of them too

– I know I shouldn’t, but I do –

Cause it’s cold.

I’m alone.

And I miss you.

I miss every single one of those days:

Cold, made warmer by your presence.

But now I’m cold again. The days are too.

But there is no warmth

Funny thing is –

Feeling cold only became a problem

After all the time you spent shaking it away.

I know I should

And here I am

Waiting for the warmth to come back,

And this time, I hope for it to stay.

And hope its not from you.

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desaba(fa)ndo

A música que toca no alto falante é calma.

A chuva cai, também calma.

O ventilador vai da direita pra esquerda e faz o caminho inverso, numa interminável… calma.

Tudo em minha volta, dizendo “calma”. Todos dizem “Calma. O tempo cura tudo.” Mas eu não quero calma. Eu quero gritar, eu quero destripar o meu travesseiro, eu quero estourar a caixa de som com gritos intermináveis e quero acordar os vizinhos ás 3hrs da manhã com urros de dor. Pois é assim que me sinto. Urrando.

O mundo fez a gentileza de me dar algo que eu queria muito só pra ver minha reação quando tirasse a tal coisa de mim. Então toma: essa é a minha reação. É assim que você me deixou. Sim, me deixou. Não fiquei assim sozinha.

Mas fiquei assim, sozinha.

Talvez a dor não seja de saudade. Seja de vazio. Você passa dias fazendo algo que trás aquela sensação morna, serena e feliz, pra ter aquilo substituído pelo cinza, pelo frio – não o frio “bom”, mas o ruim, que não passa nem depois de um banho quente, um pijama grosso e dois cobertores – e pela solidão. E a solidão é subestimada.

A intensidade de poucas semanas pode vencer um ano de familiaridade, se o caminho certo for tomado. E foi esse que eu tomei. Mas não fui á pé. Fui num carro novo, brilhante, possante, descendo a estrada sem limite de velocidade, confiante de que não despencaria de um precipício ou daria de encontro a uma parede. E a medida que as marcas de quilômetros passavam, imaginei que eram as barreiras que eu, de alguma forma, facilmente superava.

Ledo engano. Mas não acabei batendo o carro. Ele foi lentamente deixando de funcionar. Tornou-se velho, enferrujado, e quando finalmente deixou de funcionar, me deixou isolada no meio de um deserto.

E nele estou por enquanto. Pedindo carona. Seguindo a pé.

Tomando medidas preventivas, também. Mas não pense que eu estou fazendo o caminho de volta.

Eu estou seguindo em frente, por mais cansada, com medo, angustiada e só que eu esteja. Já cansei das pradarias, dos altos e baixos da montanha e do morto deserto. Estou procurando o mar – o revolto, o inquieto, assim como eu – e eu e ele, sozinhos, nos completaremos. Assim espero.

Até lá, mandarei notícias do caminho.

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emphasis

[em-fuh-sis] – noun, plural emphases  [em-fuh-seez]

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

But I did it, anyway.

 

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