guia da reflorescência.

(sugestão: leia enquanto escuta The Living Sculptures of Pemberly, de Jean-Yves Thibaudet e Dario Marianelli.)

Está frio.

Estou só.

Mas estou completa.

A chuva que cai, a música que escuto e as coisas que imagino enquanto olho o céu me dizem que continuo a mesma. Inteira, viva, e, mais importante: aberta a ser feliz. Novas perspectivas surgem e a saudade dá lugar a aceitação. O meu “demorou pra ser mas agora é” pode ser perfeitamente dedicado de mim para eu mesma.

Agora, mais do que nunca, vi que preciso ser inteira, pelo meu bem e por minha integridade. Por tudo o que admiro nas pessoas e desejo para mim, devo ter forças de aceitar os fatos e me recompor, de acordo como deve ser.

Como já disse antes, agora perseguirei o mar. Vou me aconchegar na quietude e meramente admirar as memórias. Vou abraçar minhas paixões, meus deveres e viver outras aventuras – que comecem bem e terminem melhor.

No frio, vou respirar fundo e ouvir o que a chuva tem para me dizer, sentir o cheiro da vida em regozijo com sua renovação vinda do céu, e vou imitá-la.

Na solidão, ou vou dançar até encher a sala, ou farei como faço agora: falarei pelos dedos e para o papel, meu ouvinte mais fiel e conselheiro mais sutil.

Na dor, vou me apegar a momentos como o que vivo ao escrever este texto. Onde a calma e a contemplação guiam minhas ações. Vou me lembrar da alegria morna e reconfortante de ver meus pais abraçados na rede ao meu lado, na varanda, mamãe falando de seus episódios e papai silenciosamente ouvindo tudo. Não preciso disso exatamente para mim, exatamente agora. Só preciso saber que existe e que está ali. Sendo tudo o que eu preciso, onde e como preciso.

Simplesmente… existindo. E nessa atitude simples e pequena, o amor me dá tudo o que tem a oferecer.

(texto escrito em 6.2.16, na varanda da casa no interior, durante uma chuva, no carnaval.)

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The Cold.

(sugestão: leia ouvindo a música A Letter From Limerick, de Adrian Johnston, do filme Becoming Jane.)

The night grows colder and I start thinking of you.

I know I shouldn’t, yet here I am,

Gazing at my porch, where we lied together

For the first, second, third, fourth time…

And yes, I remember every single one of them,

And miss all of them too

– I know I shouldn’t, but I do –

Cause it’s cold.

I’m alone.

And I miss you.

I miss every single one of those days:

Cold, made warmer by your presence.

But now I’m cold again. The days are too.

But there is no warmth

Funny thing is –

Feeling cold only became a problem

After all the time you spent shaking it away.

I know I should

And here I am

Waiting for the warmth to come back,

And this time, I hope for it to stay.

And hope its not from you.

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desaba(fa)ndo

A música que toca no alto falante é calma.

A chuva cai, também calma.

O ventilador vai da direita pra esquerda e faz o caminho inverso, numa interminável… calma.

Tudo em minha volta, dizendo “calma”. Todos dizem “Calma. O tempo cura tudo.” Mas eu não quero calma. Eu quero gritar, eu quero destripar o meu travesseiro, eu quero estourar a caixa de som com gritos intermináveis e quero acordar os vizinhos ás 3hrs da manhã com urros de dor. Pois é assim que me sinto. Urrando.

O mundo fez a gentileza de me dar algo que eu queria muito só pra ver minha reação quando tirasse a tal coisa de mim. Então toma: essa é a minha reação. É assim que você me deixou. Sim, me deixou. Não fiquei assim sozinha.

Mas fiquei assim, sozinha.

Talvez a dor não seja de saudade. Seja de vazio. Você passa dias fazendo algo que trás aquela sensação morna, serena e feliz, pra ter aquilo substituído pelo cinza, pelo frio – não o frio “bom”, mas o ruim, que não passa nem depois de um banho quente, um pijama grosso e dois cobertores – e pela solidão. E a solidão é subestimada.

A intensidade de poucas semanas pode vencer um ano de familiaridade, se o caminho certo for tomado. E foi esse que eu tomei. Mas não fui á pé. Fui num carro novo, brilhante, possante, descendo a estrada sem limite de velocidade, confiante de que não despencaria de um precipício ou daria de encontro a uma parede. E a medida que as marcas de quilômetros passavam, imaginei que eram as barreiras que eu, de alguma forma, facilmente superava.

Ledo engano. Mas não acabei batendo o carro. Ele foi lentamente deixando de funcionar. Tornou-se velho, enferrujado, e quando finalmente deixou de funcionar, me deixou isolada no meio de um deserto.

E nele estou por enquanto. Pedindo carona. Seguindo a pé.

Tomando medidas preventivas, também. Mas não pense que eu estou fazendo o caminho de volta.

Eu estou seguindo em frente, por mais cansada, com medo, angustiada e só que eu esteja. Já cansei das pradarias, dos altos e baixos da montanha e do morto deserto. Estou procurando o mar – o revolto, o inquieto, assim como eu – e eu e ele, sozinhos, nos completaremos. Assim espero.

Até lá, mandarei notícias do caminho.

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emphasis

[em-fuh-sis] – noun, plural emphases  [em-fuh-seez]

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

I never said I gave him my heart.

But I did it, anyway.

 

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[silêncio] [suspiro]

Estamos “naquela” época de novo. A energia do ano começa a minguar, e com ela, a minha também. A serenidade e a melancolia ficam, me fazendo lançar um último olhar para os eventos deste ano, e lembrar dos anos anteriores também.

Passo a analisar a minha conduta, minhas escolhas e minhas respostas para as charadas que a vida propôs. Me arrependo de algumas, me orgulho de outras, e algumas simplesmente evito lembrar. Estas deixam o questionamento se, de fato, cresci em algum sentido com o passar dos meses.

Analiso minha solidão. Minha relação com ela, os aspectos que mudaram e os caminhos aos quais ela me levou, e que em sua “companhia” percorri. Nestes doze mezes juro que tentei dar um fim a ela –  dei chances, beijos, olhares e abraços… até demais. Cheguei a dar tudo de mim, pelos motivos e pessoas erradas, e fui deixada com nada em troca (ou assim pensei).

Em tempo, eu acredito, curei-me da cegueira, e vi que não estava totalmente afundada. Algumas pessoas, e as risadas que juntos dávamos, mantiveram minha cabeça acima da água, dando tapinhas em minhas costas para que eu não me afogasse, afugentando fantasmas ainda mais sombrios que a solidão. A presença destas sempre foi como o momento de pedir “paz” da brincadeira.

A brincadeira em questão? O amor. Sim. O amor romântico, o amor da cumplicidade e da paixão. Depois de tanto tempo o vendo por aí (ainda que na posse de outros) decidi procurar um para mim: sem sucesso.  Nesta altura do campeonato, resta-me dar de ombro e seguir em frente, tentando não ansiar tanto por algo com o qual meus olhos estão familiarizados, mas meu coração não. Talvez seja o momento de segurar-me nos momentos de risadas, lágrimas e brincadeiras que se espalham lentamente entre os dias na memória.

(Afinal, se existe um substituto para o amor, este é a memória.)

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Olá, sou eu

Queria poder escrever-te uma canção. Daquelas que grudarão na parede do teu coração, com as estrofes gravadas na tua pele como a tinta daquela tua tatuagem de dragão que contorna os ossos finos da tua costela e desce pela tua costa. E que a melodia te embalasse nos teus melhores momentos. Que as rimas fizessem sentido na tua mente quando estivesse revolta numa tempestade de tristeza e teu rosto estivesse apoiado nas tuas mãos, com teus cotovelos nos joelhos e água escorresse pelos poros do teu rosto agora abertos pelo gosto salgado que ela tem. Que te acompanhasse sempre: quando estivéssemos juntos deitados nus na cama do meu quarto e ela ressoando das caixas de som, mas, e principalmente, quando estivermos longe, pois, assim, não estaremos.

Me desculpa, mas já adianto que ela vai ser das tristes. Sim, das que parte tua alma em pequenos pedaços repletos de torpor. É só o que eu sei fazer. Não vai entender que o que temos me faz mal. Nem por um segundo.  É que sou assim, nasci em uma noite em que a lua estava amarela, e o sol ficou preso dentre as nuvens negras no dia seguinte. E é bem isso, sabe? Sou nublado. E o que é o ser? Nem queiras saber. Na verdade, pode até perguntar, mas não saberia dizer. É isso, o ser. Indefinido. Como não tinhas percebido isso até agora?  Talvez por eu não o ser mais isso para ti. Tenho quase certeza que a incógnita do meu eu só permaneceu em ti por 2 segundos depois de nos conhecermos. Então me definiste. Surpreendente é, depois de tanto tempo, estarmos aqui um do lado do outro, ainda que de longe. Talvez eu só ache que sou alguém complicado de entender e no final não permaneça mistério algum, mas se alguém me entende magistralmente, essa pessoa tem teu nome.

Não se preocupa, não vou deixar tanta melancolia ficar assim tão aparente. O que os outros iam pensar de nós? Vou escrever tudo o que eu quero nas entrelinhas, como a vida é. De um jeito que só tu pode e vais entender. Os compassos vão ser daqueles mais lentos, de jazz, que sabes que eu amo. Um ritmo moroso, do jeito que levo a vida. Desse jeito devagar que te irrita tanto de-vez-em-quando-quase-sempre. Um dia vais entender isso também. Essa coisa de viver já é uma maratona por si, e eu não gosto de correr. Se pudesse, seria carregado. Vais entender sim. E não, não é porque eu desisti, ou sou desanimado. Só tenho um modo particular de enxergar o todo. Encaro ela como um livro que gosto de ler. Vou virando as páginas devagar, lendo uma palavra de cada vez. Sublinhando as que são melhores. E se me perco entre elas, volto tudo de novo, pra extrair o máximo que há dali. Enxugar o conhecimento do livro que nem toalha seca depois do banho frio. Esqueço o livro quando saio, perco o marcador e a página que tinha parado. Ou só deixo ele um pouco de lado pra poder aproveitar mais depois. É o meu jeito. E não vou te pedir desculpas, vais me aguentar assim. Já te ensinei que nunca se pede desculpa pelo que se é, só por suas consequências.

Ah, e vai ter que ter uma parte de piano, obviamente. Porque vou querer ouvir ela sendo performada por ti e esses finos longos dedos. Só uma música minha pra tocares, pois, até agora, esse talento é só um sonho abstrato que me convenceste a acreditar que é real, já que nunca vi. Vou aprender a tocar trompete e dar um jeito de colocar um no meio também. Aí vamos mostrar pros amigos, família e todo mundo mais. Mostrar que mesmo que não tenhamos uma sincronia eximida de erros, nossa parceria é perfeita. Aposto que nossas mães vão chorar juntas nos ouvindo. E uma apresentação especial para as nossas vózinhas, os seres mais cheios de ternura de que já ouvi falar. E os outros que já nos amam ou odeiam pelas fotos que temos juntos, que não capturam nem uma parte ínfima dos instantes singulares em que foram tiradas, o vão ainda mais. Já que qualquer ocasião contigo é o melhor que do mundo eu recebo e posso receber. Seja um filme ruim, um jogo de futebol. Estar na tua presença é das maiores honrarias.

E não precisa lembrar que não sei nada de música além de ouvir. Não disse que ia ser das boas. Mas, sinceramente, não tem como ser ruim, já que vai falar de nós. Nós que, até os momentos não tão bons, depois que passam, mostram o quanto foram bons de terem sido vividos. No jogo de soma e tira que é a vida, o meu saldo, agora que te conheci, nunca foi tão positivo. E eu como gerente dessa conta, jamais estive tão contente. Dizer que eras e é tudo que eu mais desejava e preciso não é exagero. Só não falo para não inflar mais esse teu ego que já não é pequeno. Alguns versos dela vão ser pra te agradecer. Sei que já faço isso demais, quase tanto quanto peço desculpas pelos meus erros. Só que é inevitável. Se é estar do teu lado que dá harmonia às notas sem cadência das batidas daquele que bombeia o sangue por esse meu corpo, só posso expressar gratidão. Talvez fique no refrão, pra que quem quer que ouça, ainda que não decifre o resto dela, fique com essas frases gravadas na memória.

Queria que a nossa canção se tornasse um hino. Dos incompreendidos, dos apaixonados, dos banais. Do jeito que eu penso, ela vai ser um sucesso. Quero que seja performada pela Adele ou a Lana. Sei que você nem gosta delas, apesar de estranhamente saber cantar todas as músicas das duas. Mas só a voz tristemente rasgada das duas conseguiriam dar o tom correto. Se Janis tivesse viva, com certeza seria ela. Ou Elis. Talvez Cássia Eller. E a Amy também. Só mulheres atribuladas, não é? Acho que no final não tem como ser talentosamente genial sem de alguma forma ser problemático. Não em um mal sentido, só de uma vida repleta de problemas mesmo. Até pra ser justo com o resto dos desprovidos de qualquer habilidade natural, como eu. Se nem uma delas aceitar, a gente procura alguém com uma voz embargada, nem que seja pra cantar só uma pra gravar e guardar só pra nós.

Resolvido. Não vou fazer uma música. Vou fazer uma coletânea inteira. Seria pedir demais caber tudo de nós em 5 minutos de letras. Ou talvez não faça nem uma e continuamos a nos encontrar nas canções que os outros declamam. Já perdi a conta de quantas dessas são até agora, só sei que, quando ressoam pelos cantos, só dá você. Melhor é quando posso sussurrar uma delas à capela no teu ouvido e ver os pelos do teu braço arquearem em arrepio. Ah Deus, só quero voltar na próxima vida sendo músico, pra me apaixonar de novo por ti e dedilhar no violão um som grave pra embalar nossa tardinha à beira da piscina. E fazer juras de amor eterno enquanto dure, desde que seja para sempre. Só que agora cantadas. Talvez eu ainda consiga nessa vida, vou tentar. Pois todo músico é um apaixonado e por isso todas músicas são de amor. E apaixonado já sou e teu amor por mim e o meu por ti é inesgotável matriz de possíveis próximas mais pedidas da rádio. Quando começar a batida daquela que carrega todas ou só uma de nossas histórias, todos vão aumentar um pouquinho o volume.

Vou te fazer essa música, prometo.

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Tamanhos

Passo os olhos por rostos que não conheço que se amontoam numa fila. Do conforto da poltrona do ônibus agora não tão mais vazio, me pergunto:

Isso é vida?
Ou melhor: isso é viver?

Ao saírem do interior, meus avós buscavam algo melhor na capital. Aquela cidade, que já não é imensa hoje, à época talvez só possuísse cinco ruas asfaltadas (não havia reeleição para prefeito, provavelmente). Mas sim, ela cresceu. Se tornou relativamente grande. E eu me mudei de lá, para uma maior ainda. Tão grande que centenas se amontoam na busca do transporte que não esbanja espaço nem conforto.

Grande?
No quê? Grande em sonhos? Perspectivas de futuro? Em riqueza?
Não que no que dá pra ver.

Quer dizer, talvez para alguns. Mas a menina que se esconde debaixo da cama junto à mãe para se esconder de balas que são tudo menos perdidas não tem nem um dos três. Ela só queria sossego.

A grande cidade precisa de pequenos nós para que sobreviva. Sem a carta na posição certa, o castelo cai. Porém, a todo o momento, ela nos mostra a nossa insignificância. Amontoa-nos na base da pirâmide assim como esmaga nosso rosto na porta do metrô. Claro, isso para sustentar um topo de poucos.

Tento daí tirar a minha motivação. Aprender a tornar a minha insignificância na força motriz dos sonhos que construí para mim e não para a rainha de copas no topo. Se somos, para a cidade, substituíveis, façamos-nos únicos é imprescindíveis para nós mesmos.

A menina debaixo da cama só queria sossego.
E entendeu isso também. Chegou a um palpite de onde era o seu lugar.
Cresceu (conseguiu, ao contrário de alguns amigos que ficaram pelo caminho)
Trabalhou na cova de algozes que é a grande cidade.
E foi até a rodoviária, malas, cuias e mãe.

Duas passagens, por favor.

Para onde?

O mais longe possível.

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